As armas secretas, de Julio Cortázar

Por Rafael Kafka




As armas secretas é uma compilação de cinco contos escritos por Julio Cortázar e traduzidos por Eric Nepomuceno, que também traduziu Cem anos de solidão de Gabriel García Márquez para a editora Record. A edição lida por mim para feitura dessa resenha foi produzida pela Civilização Brasileira.

Os cinco contos contidos no livro são de um primor estético e literário muito altos. Porém chega a ser redundante usar tais termos para se falar de obras produzidas por Cortázar. A não ser, é claro, que o leitor não goste de histórias mirabolantes e repletas de surpresas típicas da linguagem do realismo mágico, o que o fará não ver primor nenhum nas obras do escritor argentino, porque é isso o que vemos nos contos e romances de Cortázar: as histórias começam em um ritmo de prosa e falam de assuntos (perdoem o trocadilho) prosaicos, comuns, banais.

Aos poucos, contudo, as surpresas aparecem e o que começou como um causo simples ganha contornos angustiantes e, em certos momentos, horripilantes. O vocabulário de Cortázar não é difícil como o de um James Joyce, mas a linguagem se desfaz diante de nós, revelando uma realidade opaca, complexa e ambígua.

Muitas vezes terminamos de ler um conto do escritor argentino e não sabemos dizer se o que concluímos está certo ou errado do ponto de vista interpretativo. Ouso dizer, assim como críticos mais experientes e gabaritados, que Cortázar brincava com a capacidade assaz subjetiva do ser humano de interpretar as coisas conforme o seu olhar. Sabendo da supremacia da visão pessoal do leitor sobre a voz do autor, o autor de O Livro de Manuel criou histórias de final ambíguo mostrando que o ponto de vista humano é o definidor de sentidos em nossa realidade.

Nesse sentido, sabendo que cada leitor faria uma interpretação de suas obras, Cortázar criou obras que conseguem mexer com nosso âmago, deixando-nos angustiados em nosso costume por obras de sentido completo, ou antes, aparentemente completo. Ele escrevia como quem brincava, eu sempre digo: poucos autores têm um domínio tão grande da linguagem e não é à toa o fato de seu principal livro O jogo da amarelinha levar o nome de uma brincadeira.



Mas falando de As armas secretas, encontramos nos contos os bons e velhos elementos da prosa cortazariana presentes. A ambientação geralmente se passa em locais urbanos, alternando entre Paris e Buenos Aires quase sempre. (O que pode ser considerado um elemento autobiográfico importante na análise, já que Cortázar nasceu na capital argentina, vindo a se radicar na França até o fim da vida.) Além disso, vemos personagens comuns, repletos de uma vida em si simples, porém, como qualquer ser humano, cheios de dramas pessoais, desejos e questionamentos existenciais.

Um breve parêntese meu: o grande charme do realismo mágico, em especial em autores como o aqui abordado e José Saramago, para citar outro nome que se beneficia dessa estética, é a predileção por protagonistas como pessoas simples, sem a capa de sofisticação da fama. A maioria dos personagens desses dois autores são homens do povo, pessoas como nós, leitores, os quais muitas vezes nos identificamos com a situação absurda vivida por eles e pensamos em nossos próprios conflitos.

Esse efeito de usar seres banais como protagonistas de histórias, torna cada conto uma surpresa em si mesmo. Assim como Machado de Assis, Cortázar possui uma imaginação imensa para abordar e criar o mais variado panteão de situações. Claro, que diferentemente do mestre do realismo brasileiro, o argentino usa uma linguagem mais simples, porém com recursos narrativos próprios, o que o tornam um franco experimentalista das narrativas.

Falando do contos de As armas secretas é difícil tecer uma análise tão simplória quanto essa que faço sem a certeza de que estou a deixar de lado uma série de elementos narrativos, estéticos e temas políticos, filosóficos e outros mais os quais por si só dariam páginas e mais páginas de análise acadêmica a respeito.

“Cartas de Mamãe” é por si só é um dos contos mais surpreendentes do livro. E um dos mais curiosos já lidos por mim. Nele, percebemos a presença bizarra de um triângulo amoroso que nem existe mais, a não ser na lembrança de um irmão morto por tuberculose dois anos antes e no silêncio insistente da esposa do irmão vivo, que antes tinha um caso amoroso com o morto que agora é citado, como vivo, em uma carta da mãe. Na carta, a mãe de Luis (o irmão vivo) diz que Nico (o irmão morto) pretende ir a Paris fazer uma visita a ele e à esposa, Laura.

No começo, Luis estranha o comportamento de Laura, impassível perante a menção do nome do ex-amor esse tempo todo. Com o passar do tempo, contudo, a presença do irmão morto nas cartas da mãe torna-se mais insistente e o que a princípio parece ser um delírio da mãe causado pela idade, começa a se tornar uma dúvida cruel: o irmão realmente está morto? Infelizmente não posso colocar aqui a minha conclusão do conto, mas posso dizer que esse clima de ambiguidade (a morte ou não do irmão) persiste após a finalização do conto, o que o torna ainda mais bem escrito do que sua narrativa bela, dinâmica e veloz, mesmo falando de fatos comuns, como diálogos entre um casal que começa a ter uma crise por se questionar as raízes de sua felicidade e o quanto elas estão interligadas ao sofrimento de outro ser.

O segundo conto é “Os Bons Serviços”. Nele temos uma senhora que é convidada uma noite para vigiar um grupo de cães em uma festa de pessoas de classe alta. Após a festa, a já idosa madame acaba conversando com um dos convidados que é simpático demais com ela e até a acompanha em um momento de bebedeira, o qual termina de modo bem constrangedor quando os donos da casa pedem educadamente à senhora que se retire, porém com um ar bastante recriminador.

Algum tempo depois, o chefe da família rica que a contratou para fazer a vigilância dos cães na festa procura-a novamente, mas dessa vez para ela fazer as vezes da mãe de um importante homem que faleceu dias antes. No momento do enterro, a senhora descobre que o morto é nada mais nada menos do que o seu companheiro de farra, pelo qual ela passara a sentir grande afeição. O que deveria ser choro encenado torna-se choro sincero.

Percebemos no conto uma espécie de brincadeira com a preocupação exorbitante da classe burguesa com as aparências, a qual chega a níveis de paroxismo tão extremos quanto a criação de uma verdadeira peça teatral em um momento fúnebre.

O terceiro conto é “As Babas do Diabo”. Bem, não há muito o que dizer desse conto, pois a todo instante todos dizem algo dele. O que posso dizer no momento é que é o meu conto favorito do livro, apesar de preferir, na obra de Cortázar, outros contos como “A autoestrada do sul” e “Lugar Chamado Kindberg”. Ainda assim, a construção dessa história curta cria um certo dilema existencial e até metalinguístico quando falamos em arte.

Um rapaz, Michel, que trabalha com fotografia, está em um parque quando observa um garoto e uma moça mais velha conversando. Cortázar usa um recurso muito dominado por ele e cria um efeito que chamo de “dizer sem dizer algo”: percebemos com pistas ditas pelo narrador (sabemos o que ocorrerá na sequência) a essência do sentimento que permeia a cena. No caso, a primeira experiência sexual do garoto com uma mulher mais velha, que provavelmente está a ser paga por aquilo.

O fotógrafo foca a sua câmera despretensiosamente e poucos dias depois, rememora a cena e começa a perceber detalhes nela não vistos antes, em especial relacionados à presença de um homem que fica à espreita de tudo até o momento em que o garoto foge (quando Michel dá o clic da câmera). Michel então, por meio das reproduções feitas da cena em fotografia, começa a imaginar a cena de um crime. Mas qual crime seria esse?

Relendo o texto, ficamos perto muitas vezes de responder a pergunta, contudo mais uma vez a imprecisão é a marca característica de tudo. O crime imaginado por mim, pode ser diferente para outro leitor. Ou melhor, provavelmente será.

Li o conto muito tempo depois de ver Blow Up de Antonioni, inspirado em “As Babas do Diabo” . (Por sinal, vale ressaltar que após ver o filme, dirigi-me a uma biblioteca em busca do romance O Livro de Manuel, o qual considero meu livro favorito.) O filme já me causara uma impressão ainda mais forte após a leitura do conto: a de que o olhar humano não apenas entende a realidade, mas a recria.

E ao menos em minhas leituras de Cortázar pude perceber em alguns pontos essa metalinguagem com o olhar, com a interpretação das coisas pelo ser humano. Dentro do quarto conto, “O Perseguidor”, achei que tal questão chega a níveis de significação muito amplos.

Tal conto, considerado ao lado “As Babas do Diabo” o melhor de Cortázar por muitos, vemos uma relação de amizade bem interessante entre um saxofonista considerado uma lenda no jazz, Johnny, e seu amigo crítico de música, Bruno, que por sinal escreve uma obra biográfica sobre o amigo jazzista.

Johnny é um homem perturbado, repleto de delírios, vícios, problemas de composição. Podemos associá-lo ao mito do gênio incompreendido, como tantos do naipe de Kurt Cobain e Amy Winehouse. Bruno é o típico jornalista que vive de falar da arte feita por outros. A relação entre os dois começa bem harmoniosa, com Bruno dando todo o apoio que pode a Johnny e expondo em uma espécie de monólogo as coisas que vê em Johnny e as impressões que tem disso.

A relação dos dois começa a sofrer choques quando debatem-se a visão do amigo com a visão do crítico literário. Aos poucos, Bruno percebe que Johnny reage demais negativamente àquilo que foi dito sobre no livro feito. No final do conto, percebemos uma crítica muito interessante ao labor do crítico de arte em geral, o qual é mais um leitor que expõe sua visão sobre o objeto lido, contudo tendo um prestígio e um direito de voz que os demais leitores anônimos não têm. É um conto longo e cheio de improvisação. e de jogos de espelho ontológicos.

O último conto é o que dá título ao livro. Nele, vemos um casal passando por um problema que seria usado em outra personagem de Os Prêmios: uma mulher com problemas sexuais que não consegue se sentir excitada a ponto de se entregar ao namorado. Mesmo em uma temporada de dez dias juntos o problema parece não sumir e aos poucos fatos do passado são jogados de forma turva em cena.

O conto começa de forma harmoniosa, mas aos poucos um certo terror psicológico é instaurado e mais uma vez o final é impreciso e deixa para o leitor a tarefa de definir como tudo termina em seu universo de inferências. Vemos nele de forma bastante sutil os fantasmas do passado marcando de forma bastante firme o presente da mulher, a qual não consegue se despir de seus medos e sentir prazer no sexo, despertando, por conseguinte, os fantasmas atuais do amante.

As armas secretas é mais um dos muitos livros de Cortázar em que ele convida o leitor a participar ativamente da história, colocando os pontos que faltam nas lacunas apresentadas no decorrer do texto. É um livro que pode até não exigir muito tempo de leitura para os leitores mais apressados, mas deve ser lido com atenção e preparo, pois como qualquer obra de Cortázar tem o poder de relançar um novo olhar sobre a vida, mostrando tal fenômeno como um fato aberto e sem explicação fechada. O que para leitores como eu a torna ainda mais digna de ser vivida.

***

Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.

Comentários

Caro Rafael, fiquei muito feliz, ao ler seu texto, de descobrir outro apaixonado por "O livro de Manuel", meu Cortázar predileto (e isso é dizer muito, em tal autor).
Alfredo Monte
Rafael Kafka disse…
Caro Alfredo, fico feliz de ver uma pessoa com todo o seu embasamento teórico elogiando meu texto. "O Livro de Manuel" foi algo que mudou meu horizonte de leitura para algo muito maior. E entendo que é dizer muito meu. Afinal, é difícil escolher qual dos livros dele é o melhor. É uma obra-prima atrás da outra.
Sergio Carmach disse…
Parabéns pelo texto, mas há um equívoco nele: Cortázar não nasceu em Buenos Aires, mas em Bruxelas (Bélgica), mais especificamente na embaixada argentina de Ixelles. Abraços.

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