Um novo final para um conto de Jorge Luis Borges

Detalhe do manuscrito encontrado pelos pesquisadores da Biblioteca Nacional da Argentina. Foto: El Clarín


O famoso conto do escritor argentino Jorge Luis Borges, “Tema do traidor e do herói”, do livro Ficções, publicado em 1944, teria outro desfecho: um parágrafo que havia adicionado e que foi descoberto recentemente. Um dos pesquisadores encontraram um manuscrito inédito do autor na hemeroteca da Biblioteca Nacional da Argetina e que nele o fim para o texto está de outra maneira da conhecida, segundo notificam os jornais La Nación e Clarín. O texto foi encontrado entre as páginas de uma edição da revista Sur e não foi uma descoberta casual; há uma equipe de pesquisadores da biblioteca fazendo um minucioso rastreamento aos arquivos de Borges. Foi na edição 112 da revista, em fevereiro de 1944, que o conto apareceu publicado pela primeira vez. 

Ezequiel Grimson, diretor de Cultura da BN, destaca que “este é o primeiro manuscrito que está sob custódia do estado argentino”. O pesquisador Germán Álavarez ressalta que o parágrafo que foi descoberto ajuda a compreender a forma como Borges trabalhava: “Cada supressão é significativa porque mostra que cada palavra é pensada, e tem uma intuição”, diz. Para a pesquisadora Laura Rosato, Borges utilizava os textos que iam aparecendo em publicações periódicas como suporte para novas correções.

"Tema do traidor e do herói" tem como protagonista o revolucionário irlandês fictício Fergus Kilpatrick e parece que esse achado dos pesquisadores argentinos tenha sido mesmo premeditado pelo próprio Borges. É que no conto, Ryan, bisneto de Fergus, também "descobre nos arquivos um manuscrito".

Ryan investiga o assassinato do seu bisavô e se inteira que o mesmo Fergus havia sido assassinado como um traidor da causa pela qual levantava bandeira como líder. Assim que aceita sua condenação à morte, ensaia uma teatralização: para que a rebelião não perca antes do triunfo, Fergus deve morrer como um herói, e para isso, o obrigam a recitar os versos de A tragédia de Julio Cesar, de William Shakespeare. O que Ryan descobre é que Fergus Kilpatrick intercalou palavras de sua autoria, muito mais dramáticas que as do próprio dramaturgo inglês.  

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