Gravidade, de Alfonso Cuarón



É um filme feito pelo prazer de fazer um filme. E é por isto um filme quase perfeito, ainda que este termo seja um tanto perigoso de usá-lo depois de tantos anos de tradição cinematográfica. Mas, até chegar a esta constatação que bem poderia ser uma conclusão para este texto, é preciso dizer que elementos contribuem para o uso do termo. Antes, deixemos dito outra conclusão: Gravidade é um filme conceitual, mas sem se fechar nas fronteiras da arte em si. Se beneficia de toda uma série de recursos da longa tradição do cinema, mas sem se perder neles, usando, inclusive, da forma que tem se tornado moda desde Avatar, o 3D. Dá ao cinema em terceira dimensão, aliás, um rumo além do mero entretenimento com que alguns cineastas, talvez encantados demais com o aparato tecnológico, têm reduzido suas produções.

Primeiro, o filme tem um enredo muito bem estruturado. Não permite brechas para divagações, suposições ou idealizações de fato. Embora não se beneficie do recurso deliberadamente já fora de sentido do “Esta história é baseada em fatos reais”, consegue ser tão realista (ou até mais) quanto tais histórias. Alfonso Cuarón, parte de uma sentença: a de que o universo – essa estrutura infinita – é hostil. Não há oxigênio. Não há propagação de som. Não há... Põe já em xeque a condição de sobrevivência do homem. Revela sua extrema pequenez. Mas, também haverá de ressaltar sua grandeza ao colocar uma só personagem capaz de pelos meios criados pelo próprio homem de retirar vida na condição mais extrema.

A sentença do universo enquanto estrutura hostil será desenvolvida ao longo da narrativa. E mesmo havendo a possibilidade de salvação do homem no limite da existência, Cuarón parece não querer que esta seja superior à própria natureza. Parece que tudo é resultado de uma série de fatores operacionalizados por uma mão invisível que permite a uns – notoriamente os mais determinados – a salvação. Mas, tudo em Gravidade se desenvolve para a compreensão de que entre o homem e a natureza há uma grande lacuna talvez nunca totalmente resolvida. Não dá para enquadrar essa narrativa no cânone da ficção científica, mas não é possível lê-la com o tom moralizante de uma fábula tradicional.

Outro elemento que me chama atenção no processo de construção dessa trama está na capacidade de se fazer uma longa história (sem cair no limite do maçante) a partir de uma trama extremamente simples: três astronautas estão no espaço realizando consertos externos numa estação espacial quando são surpreendidos por uma chuva de destroços produzidos pela destruição de um satélite abatido por um míssil russo. Um deles morre de imediato e os outros dois ficam em órbita da Terra, até que apenas um reste como favorável a escapar com vida desse acidente. E toda essa situação se desenvolve em pouco menos de vinte minutos de iniciado o filme. Mas, sem malabarismos, Cuarón consegue motivar o telespectador a estar sempre em alerta; a narrativa está segura por extensas linhas de tensão.

Se a narrativa é um dos elementos mais impressionantes neste filme, também aí se recicla outras possibilidades cinematográficas: a dos efeitos especiais. Situar a narrativa em mais de 90% num ambiente no qual o som não se propaga poderia ser mais um elemento que somado com a brevidade da trama transformaria a película numa pasmaceira só. Ainda mais que, depois do cinema mudo, nenhuma produção cinematográfica terá sido a mesma, porque o som é o elemento indispensável na construção dos planos emotivos oferecidos pela narrativa bem como na construção dos movimentos de dilatação e encurtamento das distâncias temporais. Mas Gravidade não se torna monótono pela baixa frequência do som. Sem se descuidar do pacto entre realidade e ficção, o cineasta consegue mesclar as possibilidades de sonorização das situações e, repito, as sensações daí provenientes não são perdidas.

Gostei de ver ainda os extensos jogos de intertextualidade construídos por essa narrativa: estão aí ecos de A árvore da vida, 2001 – uma odisseia no espaço, Filhos da esperança (do mesmo diretor)... E nessas retomadas da tradição, uma série de jogos simbólicos são colocados a partir de determinadas imagens: como a cena proposital da personagem de Sandra Bullock em posição fetal e a de reapropriação da capacidade de andar. Sem falar no percurso de “ressurreição” da heroína marcado pelos quatro elementos: ar, fogo, água e terra. Além das simbologias, Cuarón acompanha a leva de rebaixamentos (vou assim chamar) dada ao poderio estadunidense pelo grande cinema entre 2013-2014. Ou vocês não acham irônico que num território em que os Estados Unidos se julgam os de ponta uma astronauta venha conseguir refúgio e salvação justamente em território chinês?

Há, entretanto, algumas intervenções narrativas que estão na base do clichê do herói típico das histórias de Hollywood: o melodrama ensaiado da mãe que perdeu o filho num acidente de carro; o herói que não perde o humor pálido típico do estadunidense mesmo à beira da morte; e a musiquinha country que, depois da sessão, deverá durar alguns dias na cabeça dos telespectadores. E tem ainda a interpretação de Sandra Bullock – que mesmo estando um nível acima de suas possibilidades – deixa a desejar. Ela atua bem, mas ficamos esperando mais. Talvez o diretor tenha sido um tanto displicente diante de uma atriz já de renome... O fato é que mesmo assim, é possível abstrair esses detalhes em detrimento do trabalho maior de Cuarón.


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