Maurice Sendak, o ilustrador de Liev Tolstói



O trabalho que parece ter dado destaque à ilustração de Maurice Sendak foi Onde vivem os monstros. Há, evidente, uma série de fatores que contribuíram para isto: um deles, a adaptação feita para o cinema em 2009 por Spike Jonze e a declaração famosa de nomes como o do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de que este é um de seus livros preferidos (veja aqui). Basta dizer, que apenas naquele país o livro alcançou a marca de 18 milhões de exemplares vendidos. No Brasil, Onde vivem os monstros foi editado pela Cosac Naify e os 10 mil exemplares também já voaram.

Mas, há outro título ilustrado por Sendak e quase desconhecido do público brasileiro; ao menos, com o título que recebeu em 1963. Trata-se de Nikolenka’s childhood (A infância de Nikolenka, numa tradução direta), de Liev Tolstói e é já uma raridade para colecionadores.

O convite a Sendak foi enviado em 1961 pela lendária editora Ursula Norstrom. Veio em forma de uma extensa carta de motivação criativa já que sondagens feitas antes pelos editores atestavam que o ilustrador tinha sérias dúvidas sobre trabalhar numa adaptação do texto de um escritor tão conceituado como Tolstói. Na época, o seu Best-Seller ainda não havia sido publicado e Sendak se considerava um tanto inexperiente com seu trabalho.

O texto de Tolstói data de 1852. Trata-se da obra de ficção mais autobiográfica do escritor. É o primeiro título redigido pelo então jovem militar de vinte três anos e não veio assinado pelo seu nome próprio. No Brasil a edição mais recente do texto aparece traduzida apenas com o título de “Infância” e integra um só livro – Infância, Adolescência e Juventude, que por aqui foi publicado pela L&PM Editores.

Narrado em primeira pessoa, o texto é uma crônica intensa e detalhada dos primeiros anos de vida de Nikolai Irtêniev, um garoto nascido na nobreza rural da Rússia tsarista. O texto marca-se pelo sentimento de perda que está no centro da vida desta criança, tal como marcou o próprio Tolstói que perdeu a mãe logo cedo, quando tinha só dois anos; o pai, quando tinha oito.

Para Rosamund Bartlett, em Tolstói, a biografia de tal em Infância “é enganosamente simples. Para que o livro funcionasse, Tolstói tinha de lançar mão de uma voz narrativa convincente, portanto um dos primeiros problemas que teve de contornar foi decidir se seu narrador seria um adulto, com o risco de que sua história ficasse parecida com um livro de memórias, ou fazer com que o próprio Nikolenka contasse a história de sua vida, o que implicava dilemas de outra ordem”.

A carta de Nordtrom, vê-se, teve seu efeito. Sendak aceitou o convite e dois anos depois terminou o projeto integralmente produzido com a marca estilística que o faria conhecido pelo traço criativo de Onde vivem os monstros. A insegurança do jovem Sendak chega a confundir-se com a que o jovem Tolstói engendra sua personagem.

Abaixo deixamos um catálogo que preparamos com as ilustrações de Sendak para Nikolenka’s childhood.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

Há muitos Faulkner

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Onze livros sobre escravidão e racismo na literatura estadunidense