O mundo desnudo de um poeta - Octávio Paz

Por Juan Cruz



Abro alguns livros de Paz. São sua maneira de manifestar-se no mundo. Olhos azuis, camisas azuis, as mãos tranquilas passando as páginas como quem vira ondas. O mundo dos livros sabe mais; ele entrava como o feitor mexicano de palavras que eram mundos. O mundo de Paz, perfeito e nu. Apetite de Paz. Saio com calma. E com uma certeza: seu estilo era a inteligência do estilo.

Libertad bajo palabra. Aspirava a Deus, a sê-lo. “Invento à véspera, a noite, o dia seguinte que se levanta em seu leito de pedra e recorre com olhos limpos um mundo penosamente sonhado”. Inventava a queimadura e o grito, “a masturbação nas latrinas”; o risco surrealista que compartilhou até aqui combinado com a inteligência; para fazer poesia se necessita intuição e raiva, imagem. “Fecha os olhos e perde-te na escuridão/ sob a folha de tuas pálpebras”. Isto é, por sua vez, palavra e arquitetura, o som da escultura que Paz vai despertando e que habita no interior das palavras. “Afunda nesses espirais/ de som que zumbe e cai/ e sonha além, remoto,/ para o local do tímpano, como uma catarata ensurdecida”. É um manifesto, como seu silêncio às vezes, os olhos azuis examinando o outro, jogando-o contra as cordas de sua música: “Contra o silêncio e o bulício invento a Palavra, liberdade que se inventa e me inventa cada dia”. Palavra em maiúscula, como Paz e como Poeta.  

El ogro filantrópico. Nada é casual, neste livro de reminiscências tampouco; era minucioso e preciso, como um velho pintor. Este livro é a recompilação de uma ideia, solta em muitíssimos textos soltos: o Estado é um ogro que te quer mas te devora, te anula. Paz apresenta esta frase de Juan Ruiz de Alarcón (Los favores del mundo): “Es tirano fuero injusto/ Dar a la razón de Estado/ Jurisdicción sobre el gusto”. Liberdade poética, liberdade política, cuidado com o ogro filantrópico, alerta Paz. O século XX é seu cenário, e ele joga em torno da experiência da guerra que viveu (a mundial, a de Espanha), a ascensão dos fascismos e sua perseguição perene. 

Quando foi se aproximando do fim do milênio, na Espanha voltou a alertar, em 1991: a primazia do Estado vai esconder a esperança da liberdade do indivíduo. Seu mal-estar incluía os comunismos; cada vez se fez mais individual sua situação de poeta, o poeta em seu rincão, olhando assombrado que tampouco a arte podia com o tempo. Este é, talvez, seu manifesto político mais importante sobre seu conceito de liberdade: “A prova da liberdade não é filosófica senão existencial: há liberdade cada vez que um homem é livre, cada vez que um homem se atreve dizer Não ao poder. Não nascemos livres: a liberdade é uma conquista – e mais: uma invenção”. E para assinalar essa convicção elege “duas linhas de Ifigênia cruel, o poema dramático do esquecido e negado Alfonso Reys”; essas linhas são: “Llévate entre las manos, cogida por tu ingenio,/ Estas dos conchas huecas de palabras: No quiero”. É, talvez, as duas linhas de onde parte a própria proposta intelectual de Paz: Não quero. 

A partir daí constrói-se sua poesia, e daí provém a qualidade de seu ensaio. Nunca é sobre assunto apenas, conflui e diverge, é uma excursão perpétua de sua inteligência. E El ogro filantrópico é onde está melhor assinalado esse território que marca seu o seu desgosto e sua preferência. Hoje poderíamos por num espelho (o espelho de Paz) o final deste livro: “Por que não por em causa os projetos arruinados que nos terão levado a desolação que é o mundo moderno e desenhar outro projeto, mais humilde mas mais humano e mais justo?” Porque nos devorou o ogro.

A dupla chama. Seu olhar azul era pícaro também, e sensual. Embora os veios de sua personalidade não o encorajaram à autobiografia, assim contou em 1993, que quase tudo nasce da paixão. Apaixonar-se muda a vida, a situa ao extremo do mistério, daí a necessidade do outro para apagar a chama, ou para avivá-la. “O fogo original e primordial, a sexualidade levanta a chama vermelha do erotismo e esta, por sua vez, sustém e levanta outra chama, azul e trêmula: a do amor. Erotismo e amor: a chama dupla da vida”. Aqui estão os ensaios que proclamam sua relação com esse mistério, o amor pelo outro, o erotismo e sua parte menos imperiosa, o caminho para a carícia, o impulso. Não é Neruda, claro, sua poesia é o trânsito da inteligência até a inspiração, mas o amor (se conta em A dupla chama) nascido quase todo do que ele entende de sua alma de poeta que não entende: a poesia é a pergunta do mistério, porque, como o apaixonado, pergunta ao espelho, ou ao outro: “Quem és?” 

Este conjunto de ensaios representa Paz na maturidade de suas reflexões, quando já mescla a tênue autobiografia e os sentimentos da inteligência; é, em prosa, a continuação de sua poesia. “As palavras não dizem as mesmas coisas que na prosa; o poema não aspira a dizer senão a ser. A poesia põe entre parêntesis a comunicação com o erotismo e a reprodução.” Se querem tocar o poeta e não querem queimar-se com seus versos, vão à Dupla chama. O encontrarão sossegado, e apaixonado também.

Conjunciones y disjunciones. Este é um livro de 1969, por tantas razões (políticas, biográficas), essencial na vida de Paz, expulso por seu próprio desejo da diplomacia e da Índia, dedicado já a ser mais que nunca Paz, na reta para a perfeição, e também a perder-se, lúcido, no labirinto de solidão. Um amigo, Armando Jiménez, lhe pediu que escrevesse o prólogo de seu livro Nueva picardía mexicana... “Aceitei e não havia escrito se não umas quantas páginas quando me dei conta de que, em lugar de manter-me fiel ao pedido...” Paz havia escrito um livro a partir da ideia de Jiménez e a partir a ideia do picaresco que foi alimento de sua literatura e que como é dito mais acima, esteve presente também em seus olhos, no olhar juvenil e alerta que o acompanhou sempre. 

O que se vê neste livro, à parte de compartilhar o espetáculo de sua interpretação ora tão distante e tão presente acerca da circunstância humana na literatura, o picaresco; é o milagre da inteligência de Paz sobre os assuntos que se lhe propõe: o Estado, suas inconsequências, dá-se um manifesto literário da envergadura de O ogro filantrópico... E o picaresco (só a palavra picaresco) de pronto o coloca diante de uma entrada para um exercício de pensamento incontestável e sem se distanciar de seu estilo. A cultura de Paz não tem muros, jamais sequer colocou portas para ela. O que surpreende não é o que lhe ocorre. O que surpreende é tenha ocorrido Paz, esta inteligência.

Ligações a este post:
Por estes dias chega às livrarias na Espanha uma antologia com seis ensaios de Octávio Paz até então nunca editados. No arquivo a seguir, o recorte de um destes textos agora publicados.





* versão livro para "El mundo desnudo de un poeta", texto publicado inicialmente no jornal El País.

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