Ernest Hemingway não era inimigo de John Dos Passos

Antes de se "estranharem" na Europa. Ernest Hemingway e John Dos Passos. Flórida, 1928.
Foto: Biblioteca JFK. Detalhe / Reprodução

Há sempre uma polêmica que ronda o mundo literário com o nome de inimizade. Recentemente, depois da morte de Gabriel García Márquez, por exemplo, veio a lume a briga entre o escritor e Vargas Llosa num passado que, para o escritor mexicano, deverá ir consigo para a sepultura. Entre Ernest Hemingway e John Dos Passos também houve esse impasse de personalidades. Os dois são os principais nomes da chamada Geração Perdida na literatura estadunidense. Dentre as várias publicações sobre o caso, há até um livro editado no Brasil pela Difel, de Stephen Koch – O ponto de ruptura: Hemingway, John Dos Passos e o assassinato de José Robles. A polêmica é tamanha que chegou a ser um dos temas no Primeiro Congresso Internacional sobre Hemingway, realizado em junho de 1984 e, agora, volta a ser pauta entre os pesquisadores e toma nova forma com a inserção do neto do autor de Manhattan transfer.

Hemingway e Dos Passos brigaram na Espanha, durante a Guerra Civil, quando um amigo dos dois, o espanhol José Robles, foi detido e executado pelas forças da polícia republicana. William Watson, um dos que participaram das intervenções no Congresso de 1984, na época diretor do Arquivo da Brigada Lincoln e participante da guerra em Espanha, foi um dos que chegaram a analisar os lances do mal-estar entre os dois escritores. Robles, de família monárquica, fora acusado de espionagem e fascismo e o autor de O velho e o mar, contra a razão de Dos Passos, acreditava que a causa republicana estava acima de justiças ou injustiças individuais.

Mas, o que tem a ver a prisão e o assassinato de José Robles no descarrilamento da relação entre os dois? Se só havia um impasse de visões sobre a questão política da época então tudo era só divergência e não inimizade? Vamos por parte. Sempre perturbado e fazendo do álcool seu refúgio, Hemingway foi tido como alguém de mente fértil para ver culpados inclusive para seus vícios. O autor foi para a Espanha no início da Guerra; mal quisto nos Estados Unidos, a saída Ernest, fez a carreira de Dos Passos deslanchar. Mas, pouco tempo depois, é o autor de Paralelo 42 quem faz o caminho para a Europa. Por que razão? Bem, houve uma época em que todos os escritores queriam Paris! Aí chegando, Dos Passos alcançou um cenário oposto ao que vivia no seu país de origem, isto é, enquanto Hemingway era aclamado, ele logo passou a ser mal quisto pelos republicanos. Mas, não terá o escritor se debandado em favor de uma monarquia. Não, a história é outra.

Um dos raros momentos fotografados juntos durante a Guerra Civil. Da esquerda para a direita John Dos Passos, o cineasta holandês Joris Ivens, o toureiro Sidney Franklin e Ernest Hemingway. Madri, entre 1936-39.
Foto: Bettmann / Corbis. Reprodução.

A morte de José Robles, um entusiasta da República, é onde está o então estopim. Dos Passos, sempre compreendendo o caso como um grande mal entendido quis esclarecer as causas da morte enquanto Hemingway via o acontecido como mero produto da luta pela República. Apesar de estarem do mesmo lado das disputas entre poderes, o imbróglio do ser ou não ser de Robles criado pela situação serviu de fermento ao distanciamento dos dois escritores. É quando Hemingway passou a desmoralizar Dos Passos publicamente com acusações de sê-lo fascista. O clima ficou tenso a ponto de fazer o escritor voltar corrido da Espanha. Entre os ataques de Hemingway, muitos estão registrados em Paris é uma festa.

Mas o caso volta a tona com a afirmação do neto de John Dos Passos, escritor como o avô, mas advogado meio-ambientalista, de que a inimizade entre os dois não procede da maneira que tem sido lida pelos interessados na biografia dos escritores. É evidente que foi uma amizade torturada, diz ele que também se chama John Dos Passos, mas os biógrafos se esquecem de averiguar a Guerra Civil espanhola como elemento maior da confusão.    

Nascido três anos depois da morte do avô, John reitera “que não é justo dizer que a amizade dele [o avô] com Hemingway tenha se perdido, mas que a Guerra Civil serviu de distorção dos acontecimentos na relação dos dois”. Inclusive, diz o neto, os dois chegaram a “se ver depois da guerra” e “nunca deixaram de se comunicar”; “trocaram cartas e creio que a última vez que se viram foi em 1961, em Idaho.”

Esse encontro entre os dois escritores mencionado por John aconteceu “pouco depois da morte de Katie, primeira mulher do meu avô, num acidente de carro. Creio que Hemingway estava muito triste porque no passado ela havido sido sua amiga de infância”.

Dos e Hem, eram esses os nomes com que se tratavam, ainda “se viram em Cuba e pelo visto conversaram durante várias horas. Não sei de que falaram e as cartas tampouco revelam, mas chegaram a uma espécie de aproximação. Quando minha mãe soube da tensão entre eles, porque leu uma artigo sobre essa amizade torturada, meu avô reagiu ao ouvi-la e a corrigiu, ‘Não, éramos amigos e fomos até o fim. Até que ele se matou’.” Hemingway se suicidou em Idaho, nos Estados Unidos, em 1961.

Ainda sobre aquela amizade “que acabou bem”, John explicou: “Aquela resposta de meu avô a minha mãe não era comum, ele não era tão expressivo assim com sua filha. E minha mãe me disse que pensava que a gente deveria interpretar a amizade entre dois como eterna, permanente, até a morte. Quando Hemingway se suicidou, meu avô lamentou, e meu tio, seu enteado, me disse que o dia em que soube da notícia os jornalistas o chamaram insistentemente; ele lamentou a morte de um grande escritor, Prêmio Nobel. Disse que era um talento magnífico. E ao terceiro convite já não quis mais dizer nada, estava muito emocionado e os dois partiram de carro... Naquele tempo o telefone ficava preso à parede e ele não podia se desfazê-lo, sua maneira de fugir das implicâncias que o caso levantou era vendendo a casa... Foi uma amizade dolorosa, mas uma amizade grande de todas as maneiras”.

As declarações reavivam o acontecimento e incitam outra visão a respeito. O escritor cubano Leonardo Padura, autor do romance Adeus, Hemingway, diz que desconhecia essa circunstância, mas diz que o escritor estadunidense tinha sim uma dificuldade em manter amizades. A sombra da tortura sobre as amizades cobriu todas as relações de Hemingway, diz Scott Donaldson autor de Hemingway vs. Fitzgerald. The rise and fall of a literary friendship (Hemingway contra Fitzgerald. Auge e decadência de uma amizade literária, em tradução livre para um título ainda inédito no Brasil). E cita algumas dessas amizades torturadas: “Donald Ogden Stewart, que conheceu bem Hemingway durante os anos vinte e foi inspiração para o simpático Bill Gorton, personagem em O sol também se levanta; ele dizia que no minuto em que Hemingway começava a ter algum tipo de obrigação sobre você, de carinho, de amizade, então era quando ele tinha que se matar. Ele tinha lhe posto muito acima de tudo e o protegeria a todo custo. Isso sufoca as pessoas. E uma por uma Ernest sufocou suas melhores amizades. Fez isso com F. Scott Fitzgerald, com Dos Passos e com todo mundo.


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