Cortázar de A a Z



Juan Carlos Onetti, Gabriel García Márquez e Alfredo Bryce Echenique disseram em uníssono há anos que eles escreviam para que os quisessem mais. Julio Cortázar não disse, mas conseguiu. “Queremos tanto a Julio”, rezava uma campanha editorial que recuperou sua obra nos anos noventa. E a devoção pelo autor de O jogo da amarelinha tem só aumentado.

Não por acaso o monumento mais concreto sobre esse amor por Julio é um livro Cortázar de la A a la Z (Cortázar de A a Z, título inédito no Brasil) publicado por ocasião do centenário do escritor celebrado agora em 2014. O livro é apresentado como um álbum biográfico. O livro  é organizado por Aurora Bernárdez, a primeira companheira do escritor, e Carles Álvares Garriga. Os dois já haviam trabalhado juntos na organização de Papéis inesperados, coletânea de textos inéditos de Cortázar publicados em 2006, 22 anos após a sua morte – um volume significativo para os amantes da obra do argentino que, com mais de 500 páginas traz preciosidades como um capítulo inédito de O livro de Manuel.

Para os fãs, uma legião de cronópios, o livro é emocionante, e para os leitores em geral, incluído aqueles que não leram Cortázar, é um guia sentimental e literária que tem o valor de abrir todas as portas a todos os livros, atitudes e paixões do autor de História de cronópios e famas. De A a Z, todas as entradas têm a importância de seus próprios textos, alguns deles inéditos, além de testemunhos (também  inéditos, como uma charmosa carta de Lezama Lima sobre a identidade dos romances ou outra carta de sua tradutora do francês, Laure Guille Bataillon, escrita quando Carol  Dunolp e ele fizeram sua famosa viagem pela autopista.

Julio Cortázar e sua mãe
Como todos os livros, e especialmente os livros de Cortázar, é um livro para ler e reler, mas este é em especial, um livro para ver. A Aurora e a Carles emocionam, entre outras coisas, os testemunhos do próprio Cortázar, como o poema que escreveu pela morte de sua avó. Mas isso não seria o mesmo sem contemplar as imagens aí em torno; no caso, a rara fotografia de uma senhora que deu a volta ao mundo adiantando-se às voltas ao mundo (real e figurado) que logo daria seu neto. O poema é de 1963, se intitula “Abuela muerta” (“Avó morta") e começa assim: “El angelito que tantos años dibujé al pie de unas cartas,/ y el à bientot de las despedidas, y ese nombre en el sobre/ han de seguir en alguna parte, han de ser algo vivo,/ no es posible que nada sobreviva de esa ternura y esa gracia…” (“O anjinho que há tantos anos desenhei no rodapé de umas cartas,/ e o à biêntot das despedidas, e esse nome no envelope/ hão de seguir em alguma parte, hão de ser algo vivo,/ não é possível que nada sobreviva dessa ternura e dessa graça...”).

Há nesses recortes depoimentos de um homem imprescindível na história de Julio, Francisco Porrúa, quem o descobriu, o alentou e o cobriu de sábias instruções sem as quais talvez o escritor não tivesse sido quem foi.

Este é, como O jogo da amarelinha, um livro inclassificável. Inclui um álbum gráfico que cobre todas as faces do escritor e do personagem; há uma fotografia muito emocionante dele com sua mãe,  numa atitude que logo transparece um jogo de cumplicidade entre os dois; e há páginas delicadas com textos e fotos de sua extensa relação com Aurora, a que nomeada herdeira do espólio de Julio tem cuidado com grande dedicação – o próprio autor reconhece este gesto dela, cuidadosa não apenas com sua obra, mas com ele quando dos tempos mais agudos de sua doença. Cortázar foi diagnosticado com leucemia, mas recentemente, ficou diagnosticado que tinha AIDS.

Além de Aurora, o livro recolhe depoimentos de Julio sobre seu outro amor, Carol Dunlop, quem realizou com ele uma viagem depois recolhida em Os autonautas da cosmopista, obra publicada por seu amigo Mario Muchnik. Carol aparece ainda em fotografias e entre os versos de um comovido poema de amor escrito por Cortázar em inglês, língua materna da canadense. Como é lembrado o casamento com Aurora – celebrado em Paris e comemorado num restaurante chinês – também é lembrado o casamento com Carol, depois de quatro anos vivendo juntos.

Julio Cortáza, Aurora Bernádez e Tomás Eloy Martínez

É também este um livro singular que prolonga a homenagem a outros nomes que conviveram ou contemporâneos a Cortázar. Estão aí os do boom, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa; os que foram, em algum momento de suas vidas, cronópios inseparáveis, como Luis Tomasello, Julio Silva, os Jonquières... Os que se corresponderam com o escritor como Alejandra Pizarnik apresentada em anotações e parte de uma carta endereçada ao autor em 1964.

Cortázar foi um homem de países (Argentina, Chile, Nicarágua, Cuba ou França) e aí estão testemunhos, vivências, um homem estranhado em todos lugares. De países e cidades: Buenos Aires, Paris, Barcelona... Está tudo nesse livro minucioso, pleno de graça, que inclui ainda uma entrada no dicionário dedicada a letra R, que Julio não a pronunciava bem; nem ele nem Alejo Carpentier... O vocábulo nessa ordem apresenta as capas das primeiras edições de O jogo da amarelinha em vários idiomas ao redor do mundo, incluindo a edição brasileira publicada na década de 1970 pela Civilização Brasileira.

Na letra R estão trechos de entrevistas de Cortázar surpreso com o sucesso do romance entre os jovens, ciente de escrevera um livro para adultos. Relembra a emoção de receber a carta de uma estadunidense de 19 que lhe escreve para agradecer por esta obra ter-lhe salvado a vida: decidida a suicidar-se por ter sido abandonada pelo namorado, O jogo da amarelinha cai-lhe às mãos e ela vara a noite com a leitura, sem conseguir parar; no raiar do dia decide por jogar fora os remédios que havia comprado para se matar; tinha chegado à conclusão de que seus problemas estavam longe de ser tão graves assim.

Julio Cortázar, 1983, poucos meses antes de sua morte.

Aí se encontra um percurso sentimental pela obra e por alguns personagens que marcam a obra do escritor argentino. Estão quase todos lá. Menos a Maga. Proposital? Pergunta feita lembrando-nos da abertura do romance mais famoso do autor, “Encontraria a Maga?” Bom, ficaremos por encontrar.

Cortázar de la A a la Z – vê-se – não é uma antologia. Nem uma biografia. Um álbum biográfico? O coorganizador Carles assim classifica. Não precisávamos de outra biografia. Era muito previsível. Mas é um título que há muito reclamava os amantes de Cortázar, o escritor e o homem; o escritor que disse numa entrevista em 1981 não ser “muito amigo da biografia detalhada. Isso, é o que fazem quando eu já estiver morto”. Tantos anos depois, Cortázar parece, então, ainda vivo. Aqui está essa espécie de modelo para armar com peças diversas de um escritor igualmente diverso.


É uma celebração a vida. Retomando as palavras de Juan Cruz, a quem devemos este texto sobre uma obra que tomara não tarde chegar ao Brasil, “é natural que nas fotografias se ofereça a gente rostos de felicidade. É notável que neste livro haja tantas caras que refletem essa satisfação de viver. E não é raro, pois, o que Julio Cortázar deu a seus amigos (e seus leitores) foi precisamente essa sensação de que a vida podia ser como ‘para jogar’.” O livro ora publicado é, pois, um jogo para os querem muito mais Julio. 

***

A seguir um fragmento inédito de Cortázar de la A a la Z. O trecho faz parte de um catálogo de materiais que estamos preparando para apresentar aos leitores em breve. 

Antepassados

Ontem vi de longe dois antepassados. Iam a pouca distância um do outro, com as palmas das mãos roçando o chão, e quando entre as fibras se enredava alguma extremidade, se sacudiam bruscamente e pareciam consultar-se furtivamente antes de reiniciar a caminhada. Nesses dias tenho visto muitos antepassados na cidade. A gente não os vê, talvez porque não se dê conta de que são antepassados. No café de Bob há sempre um ao cair da noite; bebe um copo de mirabelle e antes pagar lambe o fundo do recipiente e coloca boca abaixo sobre a mesa. Mas os piores são os que compram carne; esses me dão asco e quisera intervir ou dizer-lhes algo, porque entram em pares na carniceira de Stürtz e logo vão superficialmente diversas vezes às nádegas, patinho, fraldinha, alcatras, costelas, frituras e até a montanha de ossos com carne que há sempre num cesto de vime e que só os cachorros esperam. Quando no fim compram algo se tem a impressão de que não importa, que é para dissimular; na verdade têm ido pegar a carne, dar-lhe volta, consultar-se com gestos bruscos e cotoveladas.  Não gosto de vê-los em nenhuma parte, quisera que chutá-los, mas nada parece dar-se conta. Eu sim, sempre, talvez porque sou também um antepassado e tenho as palmas das mãos cheias de cuspes e papéis sujos que sempre me pegam na rua.


Quase um dossiê  para Cortázar
>>> Alfredo Monte lê  O perseguidor

Em 2013, ainda no cinquentenário de O jogo da amarelinha editamos uma série de textos Juan Cruz Ruiz e uma leva de outros trabalhos:
>>> Crônica 1;
>>> Crônica 2 + trecho de Los nuestros

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