O livro como extensão da imaginação

Por Lee Pontes



O livro, diz Borges, é o instrumento mais impressionante inventado pelo homem. O fato se deve, para o mestre argentino, que todos os outros são extensões do corpo. A roupa atua como uma segunda pele. Os automóveis são continuações dos pés, o microscópio amplificador dos olhos, etc. Apenas, o livro não é extensão de nada, mas um depositário da imaginação humana. São nas inúmeras páginas que nos perdemos, vertendo, de acordo com nossa formação sociocultural, o mundo forjado pelos escritores. Não existe algo de mais singular, que perdesse entre livros, entretanto, com os outros objetos, perdemo-nos, mas, logo nos encontramos. Os outros objetos tem o momento de adequação para seu uso, o livro não exige uma adequação ou pede um lugar exato para ser lido. Embora, cada indivíduo promova um ritual próprio para o culto à leitura, o próprio ato de ler que orienta a jornada do leitor.

Em Gli amori difficili, Calvino coloca o leitor a par da aventura da leitura. Uma jornada nunca facilmente concluída, pois se coloca para a sua conclusão interferências oriundas dos obstáculos do cotidiano, que, pensadas muitas vezes fora da leitura do livro em mãos, são as extensões significativas importantes para a construção da compreensão desses escritos instalados em um tempo e em uma linguagem. Nunca lemos o texto literário embreadamente ao seu tempo de composição, ou seja, a obra está separada de seu tempo de produção. O escritor pensa ou planeja sua inscrição, mas a obra é outra coisa, está sempre separada do seu autor. De certo que o autor se insere nos seus escritos, nunca em tudo, tão pouco nos locais onde deseja estar, mas se firma em locais em que a própria obra o permite ficar.

Quintana diz “A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.” A obra ou o livro comprado de autor X, nunca é um reflexo daquilo pensado pelo escritor, nem mesmo a sociedade está inserida na obra. A obra é uma ausência da obra, como propõe Blanchot em A conversa infinita. Obra e o projeto da obra são ausências, pois na leitura elas nunca se manifestam, isso se deve por muitos aspectos: nenhum homem é igual, compartilha-se tempos e espaços diferentes dentro do mesmo tempo e do mesmo espaço. Vejamos a interpelação entre Franz Kafka e Jorge Luis Borges, podemos encontrar dentro da ausência da obra de Borges a presença da obra de Kafka e o oposto também se firma. A ideia de uma ausência significa dizer que os livros não são extensões de seus criadores, mas extensões da imaginação humana, eis a necessidade imortal da composição textual e a solidez da cultura do livro.

Bakhtin, filósofo da linguagem, diz que o discurso, entenda-se por discurso o texto literário, é o entre-espaço para instalação da alteridade, tal proposta se deve a sua observação do texto literário de Dostoiévski, em que, para a instalação da obra como edifício artístico, se serve da ausência de outras obras para se firma como uma obra, que como as consecutivas leituras se firma como ausência da obra. Eis, nesse ínterim temporal, a manifestação da obra, no Brasil, de Lima Barreto, como uma leitura de ausência do autor russo, não no sentido de falta de existência, pelo contrário, como presença ausente de influência ou como, propõe Bloom, uma angústia de influência do poeta-pai, em que o poeta-filho deva matar na sua obra esse ser maior que o castra de sua manifestação e da construção da sua obra.

É essa eterna luta de ausências, a possibilidade para a formação da obra como uma realização da imaginação humana, que ganha na leitura sua base fundamental. Não existe obra, sem a leitura. A aventura do leitor se realizar no ato de ler. Mesmo a obra de Machado de Assis tem seu início na leitura, ato iniciado em Shakespeare, Pascal, Erasmo. Ver o livro como extensão da imaginação humana permite estabelecer uma ligação eterna entre todos os textos e, com isso, como dirá o próprio Borges, em Kafka e seus percursores, ser possível encontrar no paradoxo de Zenon traços kafkianos. Borges reconhece nas composições kafkianas uma afinidade e, assim, pode-se aproximar uma voz ou um tom a poetas ou escritores que o precederam. O que une todos os textos literários em todo mundo é a imaginação, Petrônio, escritor romano, em Satíricon já apresentava traços realista, pois ao caracterizar o “nouveau riché” romano colocava nas suas falas a estrutura do latim vulgar, mas sua narração se mantinha no latim clássico, tal fato é inovador, basta confrontar com o texto homérico, em que se mantêm o mesmo resplendor da estrutura poética.

Calvino diz que a aventura da leitura é um percurso sempre quebrado, pois no tempo do texto literário se insere o tempo e o mundo do leitor, além do mundo das outras leituras do leitor, como deixa as marcas de Dostoiévski e Proust no sem texto. Assim, o leitor deixa seu mundo e chega a um não-mundo ou a ausência do mundo, em que o leitor pode ver seu mundo, o mundo inscrito no livros e o mundo inscrito nos outros textos lidos. Se Calvino diz que "um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" é afirmar que a obra ausente nunca está acabada ou fechada a uma significação final, mas sempre ausente de si e das outras e isso a faz manter-se sempre atual, sempre interrogante, sempre unida às outras por um espírito intemporal.

Para Calvino e Blanchot a figura do autor da obra é pouco relevante, isso não significa que o autor tenha morrido, mas vive e está na obra, não no lugar que gostaria de estar, mas no espaço dado pela imaginação do leitor, que pela leitura remonta a obra, que, para Umberto Eco, está aberta, não por causa do autor, mas, ao contrário, pela ausência imanente da obra. Uma Obra presente é um texto datado, fixado e possuidor de um tempo. A obra ausente é aquela que pode ser lida em qualquer tempo ou espaço, pois surge como nova na imaginação do leitor durante sua aventura pela leitura.

***

Lee Pontes é jornalista e linguista. Estuda o mal na literatura no Grupo de Estudos Vertentes do Mal na Universidade Federal do Ceará. Atualmente, é bolsista CNPQ em Linguística de Texto  (UFC). A literatura surgiu na infância como forma de castigo, virou um hábito e uma forma de vida. Toma a escrita como forma de expressão superior, pois é a língua em sua potência máxima. A graduação em jornalismo foi pela Universidade Estácio de Sá e o curso de Letras é na Universidade Federal do Ceará.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Alguns dos melhores começos de romances

Uma entrevista inédita com Liev Tolstói

Água viva, de Clarice Lispector

Potnia, de Leonardo Chioda

Avenida Niévski, de Nikolai Gógol

A lista de leituras de Liev Tolstói

De Mário Peixoto, é preciso virar a página

A ignorância, de Milan Kundera

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

O romance perdido de Sylvia Plath