Manuel Bandeira



Auto-retrato

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

É quase impossível negar que não conheça a expressão Vou-me embora pra Pasárgada. Ela está entre outras do gênero, como E agora, José? Talvez isso fosse o suficiente para dizer da consagração de Manuel Bandeira. Mas não é. Assim como também não é apenas relembrá-lo como uma das figuras mais importantes no interior do Modernismo brasileiro. É  preciso dizer, entretanto, antecipadamente, que aquela expressão vale por toda obra do poeta porque foi esta, título de um poema, que lhe valeu boa parte do reconhecimento alcançado.

Nascido no Recife e depois indo morar entre Rio de Janeiro e São Paulo – nesta última cidade iniciou, certamente por influência do pai engenheiro civil, o curso de arquitetura na Escola Politécnica. Essa formação, entretanto, foi interrompida. Por causa da tuberculose, Bandeira voltou para o Rio de Janeiro e depois, com a ajuda do pai que reuniu todas as condições financeiras, foi para Suíça e internou-se por mais de um ano no Sanatório de Clavadel. Foi aí que conheceu o poeta Paul Eluard. O retorno ao Brasil se deu em virtude da eclosão da Primeira Guerra Mundial.



A experiência da tuberculose – doença que na época quase era uma sentença de morte aos diagnosticados – bem como a ida para a Europa marcou profundamente a vida de Manuel Bandeira e refletiu-se na sua produção literária. O primeiro livro, com o sugestivo e pesado título A cinza das horas é um bom exemplo. A obra foi publicada três anos depois que retornou ao país e numa pequena edição de apenas 200 exemplares custeada pelo próprio poeta; seguia a sina de outros de seu tempo: Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, bem mais tarde foi um dos que financiou sua primeira obra.

Mas, a doença que castigou o poeta por toda uma vida não foi condição ou motivo para a construção da verve poética de Bandeira. Mário de Andrade mesmo reparou que os tantos anos tomado pela tuberculose sequer fez dele um sujeito amargurado. O curso de arquitetura ficou pelo caminho e no retorno da Suíça não trouxe apenas algumas ideias para a obra que logo publicou. “Perguntei ao Dr. Bodmer: ‘Quanto tempo de vida o senhor me dá?’ A resposta: ‘O senhor tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida, mas nenhum sintoma alarmante. Pode durar uns cinco... dez anos’” – relembra Bandeira numa de suas últimas entrevistas.

A sinistra sentença Bandeira tratou de expurgar com o riso; se o primeiro título sai-lhe soturno e um tanto pesado, dois anos depois publica seu segundo livro que é transbordamento de alegrias, Carnaval – embora seu conteúdo ainda não tenha se refeito desse transbordar-se. Mas, muito em breve depois disso, fez da poesia, piada, como Oswald de Andrade. Um gesto talvez possível de ser lido como superação ou aproveitamento do espírito nacional àquela altura ainda adormecido pelas primeiras incursões dos românticos para ser acordado com a antropofagia da Semana de 1922. “Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? / – Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” – relembrem.

Soube, além de se apropriar como ninguém da piada, valer-se do lirismo, mesmo num tempo quando a seara poética estava mais para a sisudez do verso a João Cabral de Melo Neto – nesse interstício da lírica utilizou-se de temas cotidianos e de formas da tradição clássica e medieval. E não se afastou totalmente das estruturas fixas apenas para a prática do verso livre. Anotem, já, duas características fundamentais à formação de um grande poeta: a capacidade de reinvenção formal e temática somada à capacidade de dialogar entre o seu tempo e a tradição. Provam isso os primeiros poemas lidos pela crítica com notas de poesia parnasiana e os poemas de obras mais tardias como os de Poética e Libertinagem, este último talvez seu livro mais conhecido e lido como uma das obras mais importantes no cenário da poesia moderna.



Mas, vamos ainda ao tempo de retorno da Suíça. Tido como um inválido, as primeiras publicações – como dissemos, custeadas pelo próprio poeta – só foram possíveis, certamente, por duas razões: o montante de 500 mil réis que pai lhe repassou e a iminência da morte. Como esta não lhe veio e o dinheiro foi se esgotando, Bandeira começa a trabalhar para ganhar a vida. Primeiro, fiscal de ensino; depois professor de Literatura no famoso Colégio Pedro II – aí ficou até 1942, quando foi lecionar Literatura Hispano-Americana na Faculdade de Filosofia, onde permaneceu até 1956. Durante esse período, ele dedicou-se a outras atividades: escreveu crônica, crítica musical, crítica de arte, tradução. E foi quando se aproximou de nomes da nova geração literária do eixo Rio-São Paulo: Di Cavalcanti, Mario e Oswald de Andrade.

Segundo o próprio Bandeira, em 1921 o contato com a poesia de Pauliceia desvairada terá sido uma das maiores provocações criativas porque passou. Mesmo assim, em 1922, não quis participar da Semana de Arte Moderna. Na ocasião, o poema “Os sapos” escrito à Jules Laforgue, e um dos momentos altos dos três dias de encontros no Teatro Municipal, foi lido por Ronald de Carvalho. Recebido como uma crítica aos poetas parnasianos, a ocasião serviu para um coro de vaias que interromperam a sessão de leitura. O poema é um trânsito entre um poeta antes e depois. A melancolia recorrente se transfere para o riso, mais tarde para o aguçado erotismo.

Criou-me, desde menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Os versos de “Testamento” assinalam mais esse traço biográfico que vimos percorrendo, a reposição da humildade reconhecida pelo próprio poeta; que, afinal, é para poucos reconhecer-se menor ou como disse o Jorge Luis Borges, “É muito difícil ser um poeta menor”. Além de saber-se do esforço que a tarefa de lide com a palavra, expor-se nu dessa maneira é uma forma de irmanar-se com seus outros conterrâneos poetas.



Em Itinerário de Pasárgada, a autobiografia de Manuel Bandeira, o poeta nos oferece várias possibilidades de leitura de sua obra – entre elas, a via que associa a poesia a elementos do contexto histórico onde estão inseridas ou mesmo a verve biográfica como a que salta nos versos acima: seja a influência de sua infância e relação com seus pais, ao contato com a música (arte segundo a qual sempre nutriu grande admiração e responsável pela sua imersão na poesia dada a impossibilidade de não servir à música) aos já referidos problemas de saúde. 

Mais que isso, é preciso reler ou ler Bandeira despido ou vestido de tais referentes: se formos pela primeira via sempre encontraremos o que a poesia nos oferece, afinal, nunca foi sua tarefa representar mas dizer e ser; se formos pela via segunda talvez encontraremos mais claridade em algumas aspectos. O importante mesmo é não esquecermos da sua obra. 

A seguir preparamos um catálogo com alguns dos poemas citados nesta postagem e outros dos mais conhecidos do poeta junto com algumas fotografias suas muito raras.





Ligações a esta post:
>>> No Facebook temos um álbum chamado "Encontros", copiamos um Tumblr uma seção do gênero com oito encontros históricos nos quais Manuel Bandeira esteve presente.


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