O centenário de outro mestre argentino: Bioy Casares

Por Alfredo Monte



Por uma coincidência do destino (ou será uma “trama celeste”?), dois dos maiores escritores argentinos, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, têm seus centenários comemorados em datas muito próximas (o de Cortázar, em 26 de agosto; o de Bioy, em 15 de setembro)1. Não cairei na esparrela muito comum de exaltar um à custa do outro. A meu ver, malgrado não se possa negar a existência das “afinidades eletivas”, também não se pode negar a maravilha de ter criadores literários desse naipe (a Argentina, aliás, é pródiga nesse sentido).

Outro círculo vicioso é aquele que tenta determinar uma superioridade no exercício de gêneros definidos dentro da produção de um autor (seria melhor contista do que romancista?), daí os cansativos e estéreis debates quanto a Machado de Assis, a Henry James, aos próprios Cortázar e Bioy Casares. Quanto a este último, eu gostaria muito é de estar comentando, no embalo da efeméride, uma bem-vinda edição brasileira, que não há, de um de seus admiráveis romances, Plan de Evasión (1945)2, que transcorre numa ilha-presídio (ou ilha-pesadelo, ou ainda ilha-purgatório)3 — e embora o protagonista seja, não um prisioneiro, porém funcionário recém-chegado da administração, paira sobre ele uma “mancha” na reputação, uma situação que o desonra, de modo que ali também ele cumprirá uma “pena”.

Na falta desse lançamento tão desejado, farei breve comentário sobre o seu romance mais famoso, e sobre uma ótima antologia brasileira de seus contos.

A multiplicação da solidão

Apesar de um hotel-museu, de uma piscina e de uma capela, o relato de A invenção de Morel segue o modelo básico do náufrago à Robinson Crusoé: o homem solitário que passa por dificuldades para sobreviver numa ilha longínqua (o narrador chegou a ela como fugitivo). Ali podia viver anos, sossegado, “escoltado pelo bando solícito dos ecos, multiplicadamente só”. 



Mal sabe ele como é bendita essa solidão. Como advertiu Bakhtin, “na solidão é impossível estar morto”. O mundo existe diante de nós, pois estamos vivos, e nada testemunhará a nossa morte, se ela vier, dando-lhe forma e realidade. O mundo apenas se apagará.

Mesmo que Bioy Casares seguisse esse caminho já pisaríamos num terreno perigoso. O leitor brasileiro atual pode acompanhá-lo por rumos ainda mais perturbadores, pois a Cosac Naify iniciou uma série chamada Prosa de Observatório justamente com nova tradução desse clássico de 19404.

O narrador descobre que há um grupo de quinze pessoas, fora os criados, visitando a ilha. Há uma mulher fascinante, Faustine. Ele admira esses “heróis do esnobismo” que não se importam de manter seus prazeres, mesmo com o mau tempo: “...sentados em bancos ou na grama, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores”. Tenta chamar a atenção de Faustine. E, ignorado, sentindo-se invisível (alguém quer melhor imagem do pária?); chega a indagar, como Freud já o fizera proverbial e genericamente: “Mas que será que ela quer?”. 

A extrema solidão: uma ilha povoada e nenhum contato. O isolamento completo em meio às “lânguidas conversas” das aparições. Sim, porque em determinado momento, ele percebe que não são reais essas pessoas, que repetem os mesmos gestos, as mesmas falas5.

 “Ocorreu-me que talvez se tratasse de seres de outra natureza, de outro planeta… Lembrei-me de que falavam em correto francês. Ampliei a monstruosidade anterior: a de que esse idioma fosse um atributo paralelo entre os nossos mundos, dedicado a diferentes fins”: o francês como idioma de mundos paralelos é uma impagável ironia e é uma expressão de ruína, no sentido dado a essa palavra por Walter Benjamim, por ser o idioma da civilização, em determinada época, que se congela e se mantém inerte na ilha; além disso, o idioma “dedicado a diferentes fins” denuncia a luta de classes, essa sim nunca inerte e congelada.

As aparições se transformam no pior dos pesadelos porque são artificiais: foram criadas por Morel, que preservou numa máquina os momentos vividos pelo grupo na ilha. Mundo-simulacro, reduzindo o viver a uma insustentável leveza: “Acostumado a ver uma vida que se repete, acho a minha irreparavelmente casual”. 

Morel não conseguiu possuir Faustine, e por fim vampirizou-a. Tô tornando-a imortal e irreal: “de Faustine não há senão esta imagem, para a qual eu não existo”. Só resta a loucura final: fingir-se de aparição, unir-se às imagens como se fizesse parte delas, de forma a enganar um eventual “espectador desprevenido”.

E se quem aqui escreve informar que colocou A invenção de Morel na sua lista dos 100 maiores romances do século XX para o jornal “A Tribuna”, de Santos, alguém porventura estranhará?

O Henry James da recoleta

É curioso que José Geraldo Couto, grande conhecedor da obra do norte-americano Henry James, tenha traduzido Histórias Fantásticas6, de Adolfo Bioy Casares, e nos seus comentários não faça nenhuma referência à similaridade gritante entre os dois escritores: o discreto uso do fantástico, a necrofilia das imagens amorosas, e uma visão das relações de amizade bastante inquietante, em que às preocupações mais transcendentes (a possibilidade de vida após a morte, a criação literária) se agregam  a rivalidade, o despeito, a mesquinharia, a maledicência e o fuxico. Algumas das melhores narrativas de James (“A lição do mestre”; “O desenho do tapete”; “A vida privada”; “A coisa autêntica”) exemplificam bem essas características.



Já nos quatorze relatos selecionados de Histórias Fantásticas, podemos destacar “Os entusiasmos” (1959)7, no qual o narrador é apaixonado pela mulher do amigo, um cientista que procura a maneira de fixar a alma, obtendo sucesso ao transmitir a do seu amado cachorro (motivo de discórdia com a esposa) para um bastidor. Cansado da vida doméstica, faz o mesmo com a própria alma, mantendo-se escondido dentro de um busto, e influenciando sua casa, até que Milena descobre tudo (ao pressentir a paixão do cunhado, confidente das intenções do marido):

 “Perguntou-me se eu compreendia o abismo de miserável resignação, de cegueira a todas as belezas da vida, que tal ato revelava. Afirmou que Eladio pertencia a uma horrível classe de homens que pensa muito, entende tudo, não se irrita, não sente; a uma classe de homens incapazes de perceber que uma coisa tão insólita como alguém que esteja sobrevivendo num bastidor de níquel, de vinte centímetros de altura, é abominável.”

O narrador — Bioy Casares prefere as narrativas em primeira pessoa —mostra-se ambivalente o tempo todo, ora tendendo para o lado de Milena ora para o de Eladio, o que incorpora uma nota conspiratória (extremamente jamesiana) ao texto.

Os personagens do esplêndido escritor portenho gostam de congelar imagens, de paralisar o fluxo do tempo. Não bastassem a máquina criada por Morel e o bastidor de Eladio, temos, no texto que abre da coletânea, “Em memória de Paulina”8, o fantasma da mulher evocado por dois rivais: Paulina, que o narrador considerava sua “alma gêmea”, o abandona por um escritor que seu enamorado considera medíocre. Ele viaja para a Inglaterra. Ao voltar, recebe a visita dela. Mais ainda, visionariamente percebe que a imagem de Paulina persiste frente a seu espelho. Descobre adiante que ela está morta, assassinada no dia da sua partida pelo aparente vencedor da disputa, e que a imagem que o visita é a projeção do ciúme do seu rival.

Noutro conto magnífico, “O perjúrio da neve” (1944)9, um dinamarquês perdido com sua família nos confins da Patagônia, ao saber que a filha está condenada (o médico lhe dá três meses de vida), impõe um regime ditatorial de “eterno retorno”: todos na fazenda repetirão a mesma rotina e assim a morte não chegará:

“O homem desceu da carroça e, quando o vi caminhar até a porteira, ínfimo e diligente, tive a estranha impressão de que naquele ato único via sobrepostas repetições passadas e futuras e que a imagem que o binóculo me ampliava estava na eternidade”.

Dois literatos destruirão essa eternidade. Qual deles desvirginou a filha moribunda do fazendeiro e acarretou sua morte? A interpenetração de duas narrativas e de duas interpretações diferentes transformam esse enigma numa questão tão insolúvel quanto a culpa de Capitu ou as intenções do Mestre de Henry James ao dar a sua lição ao discípulo literário.

Nesse mundo assombrado pela ambiguidade mais do que pelo sobrenatural, é deliciosa a aparição de um ET, em “O calamar opta por sua tinta”10: ele vem trazer a salvação a um mundo que pode ser destruído pela bomba atômica (estamos nos anos 50), mas é frágil e necessita ser regado constantemente. Os moradores de uma cidadezinha argentina o acolhem com boa vontade, mas precisam do regador e querem manter sua rotina diária, e acabam deixando que morra.


O charme desse texto está na maneira como é construído, todo em cima da curiosidade dos habitantes da cidade em saber por que o regador não está sendo utilizado de sua forma usual e o que está acontecendo no depósito do homem mais rico da região. Diante dessas absorventes questões, o destino da humanidade é coisa secundária.

Notas
1 Em compensação, o autor de A invenção de Morel morreu 15 nos depois do autor de Rayuela: em 8 de março de 1999.

2 Há duas edições portuguesas, uma pela Editorial Estampa (1980) e outra pela Cavalo de Ferro (2007).

3 E que é tanto a célebre Ilha do Diabo, do sistema judiciário francês, quanto a mítica Ilha do Dr. Moreau (não custa lembrar que H.G. Wells era muito apreciado pela dupla Borges & Bioy, grandes amigos e colaboradores).

4 A primeira vez que li o texto foi com o título A máquina fantástica, em tradução de Vera Neves Pedroso, pela Expressão & Cultura (e pelo Círculo do Livro). Nos anos 1980, a Rocco recuperou a tradução literal do título original (La invención de Morel). A mais recente tradução é a de Samuel Titan Jr., na edição (2006) referida acima.

5 O que não seria nada estranho no mundo de Alain  Resnais e seus colaboradores Alain Robbe-Grillet e Marguerite Duras (esta última, centenária em 2014 também), nomes paradigmáticos da nouvelle vague e do noveau roman, e os quais nunca deixaram de ser gratos a Bioy Casares pela sua invenção.

6 Outra edição da Cosac Naify de 2006.  A mesma editora lançou traduções de José Geraldo Couto para O sonho dos heróis (em 2008; o original é de 1954, El sueño de los héroes) e Diário da guerra do porco (em 2010; o original é de 1969, Diario de la guerra del cerdo).

7 Um dos textos de El lado de la sombra (1962).

8 Que faz parte de La trama celeste (1948).

9 Idem.

10 De El lado de la sombra.

***

Alfredo Monte é professor e leitor, as duas grandes atividades da sua existência. Tem doutorado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, desde outubro de 2002, com uma tese sobre a obra de Autran Dourado. Desde 11 de abril de 1993, mantém uma coluna semanal no Galeria do jornal A Tribuna de Santos. Volta e meia publica na Folha de S. Paulo. Mantém o blog Monte de Leituras dedicado exclusivamente a comentários sobre as obras que vai lendo e agora integra o corpo de colunistas do Letras in.verso e re.verso.


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