Interestelar, de Christopher Nolan



Até então o filme mais recente de ficção científica que terá cumprido um belo retorno à forma terá sido Gravidade, de Alfonso Cuarón. Mas, a nova safra, se assim podemos enumerar, acaba de receber outro título tão ou mais poderoso que o filme do cineasta mexicano. A constatação não é gratuita: Interestelar é a produção mais ambiciosa de Christopher Nolan que traz no currículo outros magistrais feitos como a trilogia O cavaleiro das trevas e A origem.

Um filme extenso e intenso que se apresenta como uma releitura em forma de homenagem a outros clássicos do gênero. Sem ser muito inventivo, mas sem escapar de tentativas bem sucedidas como a ideia de representação dobrada do tempo da ação. O cineasta não terá descoberto os enigmas do tempo que a Física desde Einstein tem se dedicado a explicar, mas conseguiu, certamente, introduzir outras possibilidades de representação através das câmeras. Isso sem cair na ideia de tempo fragmentário ou de trajetória circular. Nolan soltou seus atores num extenso corredor de espelhos para dar forma a uma história que almeja expor multiperspectivas.

E isso é o que há de mais fabuloso na película. Porque a história é possível de ser resumida em poucas linhas: num futuro indeterminado, o engenheiro espacial Cooper trabalha não como tal, mas na tarefa da agricultura. Sim, estamos numa época cujas especializações ampliaram-se a ponto de o campo, de onde provém o sustento das populações, já não produzir o suficiente que chegue à mesa de todos e o esforço governamental é agora outro: fazer com que os cultivadores incentivem outras pessoas a não desistirem do campo, mesmo que as condições climáticas já não sejam também nenhum pouco favoráveis. É o tempo em que a humanidade padece de uma espécie de crise alimentar. 

Com dois filhos e o sogro Cooper toca a propriedade mas não está sossegado com a ideia de termos desistido de buscar novas vidas fora da Terra. Ao acaso, acaba por servir de peça no desenvolvimento de um projeto secreto de construção de uma geringonça com a missão de levar o homem ao que seria outro planeta com condições iguais ao nosso, mas fora de nossa galáxia. O restante da história é do contato dessa missão ou não com os planos desenvolvidos.

É nesse ponto que Nolan se utiliza de algumas histórias das chamadas teorias da conspiração, como a de que homem não foi à lua, para registrar a impossibilidade de encontrar outro planeta com condições iguais à da Terra e mais, sobre a impossibilidade que seria salvar os habitantes daqui para esse outro lugar. Isto é, estamos condenados, seja de qual lado estivermos, a esse mundo e a responsabilidade que temos é de zelar por ele ou encontrar uma saída para a catástrofe do fim por aqui mesmo.

O impasse que seria responsável, inclusive, pelo fracasso da narrativa acaba por se resolver com um assunto há muito investigado pela Física que é sobre o contato do homem com as outras dimensões das coordenadas temporais. Alcançando isso, mesmo que não tivéssemos a possibilidade de reverter o passado, que este, mesmo na ficção proposta por Nolan, é impossível de ser revertido, conseguiríamos alcançar o futuro e intervir de alguma forma para que ele não se mostre como uma caixa de surpresas.

Dar conta de todo esse aparato imaginário requer, apesar de estarmos em terras da ficção científica, não apenas imaginação; requer, sobretudo, um longo trabalho de reflexão para que tudo saia perfeitamente ajustado e não se constitua em atentado à nossa capacidade de fabulação. Nolan consegue isso: a narrativa de Interestelar é muito bem construída, com saídas e explicações convincentes para determinadas situações. Tudo se completa com as impecáveis atuações (destaques para Matthew McConaughey que vive a personagem Cooper e Mackenzie Foy que vive Murph, sua filha quando criança), o tempo de execução das ações, a trilha sonora, a fotografia...

Se Nolan gostaria de, com esta obra, reverenciar alguns nomes do gênero, como sugere as especulações em torno de construção da ideia para Interestelar, terá conseguido. O clássico é clássico e ninguém irá destituí-lo dessa condição, mas não é este um filme que se distancie de produções como 2001: uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick. Chama atenção que Nolan não se prendeu apenas a contar uma história de ficção científica ou ainda de entreter o público com efeitos especiais sofisticados (esses nem chegam para tanto). Mas, quis produzir um artefato que refletisse sobre nossa condição humana e o fracasso do modelo de comunidade que vimos construindo.

Interestelar finda por ser um filme situado entre a dimensão de reconhecer nossa capacidade de criação para vencer obstáculos e a incapacidade de resolver questões simples e responsáveis pela condição ou modo de vida que levamos, ora devotados à ambição de sempre ir além ora incapazes de pensar no próximo ou mesmo de buscar fazer com que essa ambição cumpra com a tarefa de integração entre todos. É um filme que atenta para o nosso lugar, grande e ao mesmo tempo insignificante frente à grandeza do universo.

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