Um grão de trigo, de Ngũgĩ Wa Thiong’o


Por Pedro Fernandes



O que mais poderá tocar um leitor na literatura de matriz africana é sua diversidade. Qualquer um que se aventurar ensaiar uma breve incursão que seja por este vasto território logo será tomado por essa impressão. A chegada ao Brasil da obra de Ngũgĩ Wa Thiong’o vem novamente reforçar essa certeza; é supostamente a primeira vez que é publicada por aqui a obra de um escritor do Quênia, ao menos com essa consistência. A entrada das chamadas letras periféricas traz alguns sinais que, se o mercado editorial não terá pensado porque está (infelizmente) mais interessado nos lucros, merecem ser lembrados em ocasiões como estas: a necessidade de formar leitores abertos à recepção de outras culturas e, obviamente, inscrever outras literaturas no chamado cânone literário.

Ao referir-se ao interesse capital do mercado editorial sobre obras como a de Ngũgĩ Wa Thiong’o este texto compreende que elas só chegam aqui porque o autor ultrapassou já uma longa barreira para entrada num universo estreito e seletivo (sempre alimentado pela força do dinheiro). Ultrapassar o cerco pela literatura é um mérito do escritor. Mas será que, só escrevendo o que escreve (e sabemos que Ngũgĩ Wa Thiong’o, por exemplo, faz o que faz com qualidade) seria motivo suficiente para que as grandes editoras se interessassem pela sua obra? Fiquemos com a pergunta. Não é motivo para engendrar uma profusa reflexão sobre o tema, porque o objetivo aqui é outro: por que ler Um grão de trigo? (Além desse título publicado pela Alfaguara Brasil, a Biblioteca Azul, selo da Globo Livros trouxe na mesma data, Sonhos em tempo de guerra).

A resposta que serve para marcar o longo itinerário percorrido por Ngũgĩ Wa Thiong’o até chegar em mercados editoriais de grande porte vem na extensão intervalar entre a data de publicação de Um grão de trigo e sua chegada ao Brasil. Ainda que utilize como língua de comunicação escrita o inglês, o idioma reiteradas vezes taxado de universal e por isso o que melhor aproximaria a obra das mais importantes frentes da cultura livresca, o romance do queniano, publicado originalmente em 1967 só agora é descoberto por aqui. Somam-se quase cinco décadas, o tempo em que muitas outras obras (que por um golpe de sorte não foi a de Ngũgĩ Wa Thiong’o), inclusive do Brasil caem na vala comum do esquecimento.

Depois de dizer sobre a diversidade literária das letras africanas, é preciso não deixar de ressaltar sobre a aproximação ou recorrência de alguns temas trabalhados por essa literatura porque quase sempre estamos nos referindo a contextos que embora muito diversos culturalmente, historicamente estão irmanados por situações comuns. Todos os países daquele continente passaram (e ainda passam) por uma extensa exploração orquestrada conjuntamente pelo mundo ocidental, nunca satisfeito com o que tem ou sempre interessado na subjugação do outro a fim de manter um determinado modo de vida pautado sempre no alcance do pleno conforto. A herança deixada pelos colonizadores é uma conta que até hoje têm de pagar (e parece que para todo o sempre, porque em sociedades cujo processamento da chamada independência foi mais cedo que em territórios africanos, por exemplo, ainda se padece dos seus males).


E, Um grão de trigo, é um romance que não se esquiva daquilo que não se esquivou outras literaturas de África: a de registrar e denunciar essa exploração e louvar o processo de luta do seu povo para ter de volta aquilo que naturalmente já era seu. Alguém pensará, a terra. Mas, este texto prefere pensar noutras palavras para isso (inspirados pelo discurso de um desses heróis da independência do Quênia registrado por Ngũgĩ Wa Thiong’o): liberdade, paz, dignidade. Esses são termos mais aceitáveis quando se pensa na condição de submissão colonial desses países. Que ninguém pode tentar ser alguém se chega para se banquetear de suas benesses um intruso interessado ainda em impor seus modos e sua cultura e tomar para si o que não é. Mas, ao invés de se deter apenas no processo de luta pela independência (como se organizou as primeiras insurgências, a perseguição aos líderes dos movimentos de libertação), Ngũgĩ Wa Thiong’o constrói uma obra assinalada por outras duas temporalidades: a que antecede o período de enfretamento do poder e o de depois da independência. Um painel dessa extensão (apesar de organizado em poucas páginas) dá a esse livro um poder significativo de grande obra.

E o que faz Ngũgĩ Wa Thiong’o para conseguir condensar tantos anos de história numa narrativa breve e leve, mas nunca piegas ou enfadonha, porque alimentada de um bom ritmo e muito bem construída? O romancista não elege a figura de um herói para acompanhá-lo da sua origem ao pós-independência – de repente a saída mais viável e, ao ler, sobretudo a primeira parte, o leitor sai com a convicção de que o narrador terá se proposto a isso porque se concentra na figura de Mugo, um homem solitário que esteve preso nos campos de detenção durante o período de perseguição dos ingleses aos líderes do movimento pela independência. Ou, nessa mesma conjuntura, a figura de Kihika, outra personagem principal na narrativa, mártir na luta. Não. Ngũgĩ Wa Thiong’o desconstrói a ideia do heroísmo de uma única figura, possivelmente, porque compreende toda a comunidade queniana como responsável pela conquista.

E faz dessa relação herói individual e herói coletivo tema para uma discussão interessante, mas nunca se descuidando que autorizar alguém a ser o representante de uma comunidade é sempre uma faca de dois gumes: o escolhido pode honrar com a escolha ou pode dar as costas para aquilo que se espera dele no poder porque já está cego de outras ambições. Esse drama é experimentado pela figura de Mugo – quem, depois de voltar da prisão sem delatar seus companheiros – passa a ser visto como o líder de Thabai (o lugar elegido pelo romancista para sua narrativa). E, em Karanja, um dos que estiveram à frente do movimento de libertação e é encontrado como líder mandado pelos ingleses.     

Outra estratégia adotada pelo romancista é a de expor que as sombras de um passado recente não se desfazem de maneira tão veloz como parece firmar os livros de história. E ressuscita o interesse do grupo pró-independência em descobrir o traidor que possivelmente teria favorecido a morte de Kihika, quem primeiro se aventura em organizar as massas em prol da liberdade em Thabai, num misto de discurso messiânico-político pela penetração religiosa do cânone bíblico e pela inspiração em líderes como Gandhi e Abraham Lincoln; não sem uma pitada de revolução do proletariado russo. Esse suspense que torna as relações entre os habitantes da pequena aldeia um tanto ressabidas é o que mantém o leitor preso desde quando se familiariza com a ordem do narrado, que se guia não por um plano cronológico, mas fragmentado com idas e vindas no tempo e sem quaisquer sobreavisos, além das variações em tons da narrativa ora assumida por alguma das personagens e logo tomada pelo narrador em terceira pessoa, recurso que oferece um dinamismo à tessitura do narrado. Agora, com tantos recursos de ordem histórica, o leitor há de se perguntar, onde estará a leveza da narrativa que apontamos acima.

Ela reside no que há de melhor nesse romance: o registro da vida simples dos quenianos, os envolvimentos amorosos, as tradições, a complexa relação entre os diversos núcleos comunitários, a convivência com determinados artefatos culturais estranhos ao seu universo (seja a religião, os modos de se portar, a crescente penetração do capital e da cultura da posse ou mesmo o encanto que a chegada do trem promove entre os habitantes da aldeia de Thabai). Nesse universo de riqueza única, Ngũgĩ Wa Thiong’o constrói um painel de tipos humanos divididos entre a impossibilidade de serem o que são porque a presença do invasor já terá alterado os modos de convivência entre os indivíduos de Thabai, e dos indivíduos com sua cultura.

Um exemplo desse impasse? As relações amorosas. Numa sociedade em que a mulher, embora possa dispor da quantidade de homens que quiser, é sempre condicionada a ser submissa ao homem, que também tem a liberdade de escolha da quantidade de parceiras que lhe for conveniente, sem que para isso nenhum e nem outro tenham de se apegar pelo laço do que no Ocidente ficou estabelecido como amor, a nova geração dos gikuyu – o grupo retratado em Um grão de trigo – está agora tomada de ideias desencadeadas pela forma da monogamia: a traição, o desamor, a paixão, o apego. Esse embate é acompanhado de perto pelo narrador na construção das relações afetivas entre os da aldeia.

E, por citar este termo, embate, é muito conveniente reparar no exercício de aprofundamento pelo interior das personagens. Se ora a narrativa é um talho naturalista na descrição da paisagem, ora é ir-e-vir da consciência retratada. Por breves que sejam, o leitor que já tiver passado pela literatura de Dostoiévski não tardará perceber certo traço de identificação. Essa é uma observação que, gerida ao lado das outras aproximações ensaiadas pelo romancista, funciona como uma constatação de que Ngũgĩ Wa Thiong’o sabe conjugar sua criatividade imaginativa e, portanto, o seu tônus literário, com a tradição do cânone.

É embate também a forma como o narrador constrói a relação entre o negro e o homem branco dispondo não uma mera medição de forças das raças, mas demonstrando as complexas resistências de ambas as partes no processo de assimilação cultural – está nesse convívio a própria gênese de uma reinvenção de seu povo ou construção do Estado-nação como uma imposição contrária ao modelo de castas sociais.

Enquanto pinta esse painel diverso e sobretudo humano, Ngũgĩ Wa Thiong’o não constrói uma epopeia marcada pelo sangue e pela morte (condição sempre desejada pelo homem que quer o embate com o colonizador para repatriar o que é seu, conforme deixa escapar os primeiros discursos em torno da ideia de independência, por exemplo); não é uma obra interessada em expor o horror com tintas fortes, mesmo não esquecendo que ele está presente.

Ao invés disso, o romancista prefere compreender a história como um extenso drama e a colonização como um grande sismo capaz de abalar não apenas as fronteiras e ideia de comunidade como as margens do eu-indivíduo. Filtra nesse processo a colonização como uma radical esquizofrenia dos povos em que, não raro, quem se mostrava capaz de bradar contra os desmandos do colonizador alia-se a ele nas mesmas práticas de segregação. É evidente que nem todo processo dessa natureza deu-se pela forma de um mero impasse em que as duas partes vão perdendo suas definições até encontrar com um novo homem (digamos assim) – há casos e casos. Se no Quênia a princípio as coisas se processaram como mais ou menos se passaram no Brasil, através de acordos escusos assinados no escuro ou por debaixo das mesas, tal como sugere Um grão de trigo, isso foi o começo de uma saída igualmente dramática como os que precisaram travar o confronto corpo a corpo desde sempre. Não há colonização sem traumas e o romance prova isso.

Outra frente que nos desperta na literatura de África está na singeleza como que as histórias são construídas; é como se tivéssemos ante a simplicidade da escrita de nossos primeiros escritores, mas, por estarmos num contexto de muitos séculos de produção cultural além dos idos tempos do Brasil-colônia, aparecem, sobretudo os enredos, muito bem arquitetados. Isto é, pelo tema de denúncia dos procedimentos desastrosos da colonização e por essa natureza particular de construção da narrativa, estamos diante de uma obra que alia o ético e o estético como procedimento para compreensão de drama que não é mais só de África ou do Quênia. É muito dos que passaram por processos de igual maneira, como passamos e muitas vezes já não dispomos de memória suficiente para sentir o valor da expressão liberdade ou mesmo compreender por que ainda estamos digladiando dia e noite por questões tão pequenas quando outras necessidades são mais imperativas. É peça importante, vê-se, na compreensão do homem e suas contradições.


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