Os 10+ de 2015

Por Pedro Fernandes

A lista deste ano deveria responder por um tom diferente das listas dos anos anteriores; todos aqueles que acompanham o Letras sabem que não estou há algum tempo mais sozinho na empreitada de alimentar esse monstro que entra ano e sai ano está maior (e espero, melhor). Daí, seriam só livros e não filmes. Mas, por motivo indeterminado, as consultas que fiz não surtiram efeito. Quem sabe em 2016?

Depois disso, gostaria, para não tomar mais o tempo do leitor, de dizer apenas os motivos que resultaram nesses títulos; há autores dos quais li mais de uma obra (é o caso de António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, entre outros) e mesmo tendo publicado notas sobre quase todos, tratei de destacar apenas um e poderia muito bem recomendar mais de um e indiretamente poderá ser citado, forjando assim uma lista além da lista. Há leituras sobre as quais não redigi notas para o Letras e mesmo assim gostava de colocar em destaque e alguns li muito recentemente e é possível sair notas logo no início de nossas atividades em 2016; há outros que mesmo publicado notas não coloquei na lista (recebam sem ofensas, mas dei preferência aos títulos de 2015 editados no Brasil e tinha ainda de reduzir todas as leituras em dez livros apenas).

(Há muitos títulos de poesia – porque, mesmo sendo um aficionado pela prosa, coincidiu de cair-me nas mãos vários exercícios poéticos de grande lavra. Uns também comentei aqui, outros ainda sorvo e outros já os li mas não disse nada. Mas, porque foram muitos, eu tomei a liberdade de redigir um pequeno apêndice em que nomeio os cinco melhores livros de poesia; essa é uma novidade das listas anteriores, sempre desinteressadas em fazer separações por formas textuais).

E sobre os filmes, quase não fechei dez títulos; 2015 foi um ano de poucos bons filmes. Ou terei me afastado do mundo das imagens e me concentrado mais no das palavras? Possivelmente. Ainda assim, há muitos que não comentei por aqui, seja porque não tive oportunidade de escrever sobre, seja porque não tive condições de fazer isso (não dá para escrever sobre tudo).

A última ressalva: esta lista não tem pretensão de ser algo acabado e redutível. Não é também um ranking de melhores ou de piores e, sim, aquilo que me marcou de uma maneira ou de outra, seja esteticamente, pela maneira como seu autor o construiu, seja tematicamente, por ter trazido à superfície questões de interesse para o meu pequeno mundo.



OS LIVROS
    
1. A amiga genial, de Elena Ferrante: todos que leram essa obra da escritora italiana estão à espera dos próximos títulos que formam a série e é possível que seja um livro presente em todas (ou quase) das listas dos gostos pessoais. O estilo fortemente marcado pela força do modo de narrar clássico é o grande chamariz para os leitores de Elena. Leia mais aqui.

2. Galveias, de José Luís Peixoto: poderia acrescentar outro título do português publicado este ano no Brasil – Morreste-me, um exercício poético sobre o vazio da perda, sobre a relação entre a vida e a morte –, mas porque este é o mais recente e um dos romances que, sem dúvidas, mais me cativaram porque traz consigo memórias afetivas muito fortes, e porque o José Luís Peixoto cada vez mais assume-se enquanto um bom romancista, decidi dizer é este livro que deve estar numa lista que é de afetividades e de bons escritores. Leia mais aqui.

3. Assim na terra, de Luiz Sérgio Metz: este foi o ano que mais me dei ao gosto das narrativas com forte traço de inventividade formal e estética. Influências do António Lobo Antunes? Possivelmente. Ele está na lista, como está Gonçalo M. Tavares, e como poderia estar na lista Desnorteio, da Paula Fábrio. Mas, o livro de Metz é um para mim um marco nesses exercícios metanarrativos – e só havia lido um dos bons com o próprio Lobo Antunes e, claro, R. Roldan-Roldan. Mas, este Assim na terra... Leia mais aqui.

4. Short Movies, de Gonçalo M. Tavares: este foi o ano dele no Brasil. Recebemos Os velhos também querem viver (resenhado aqui por Alfredo Monte), Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, que em breve irei ler e terá notas aqui no Letras e este conjunto de micronarrativas que reinventam o óbvio, o comezinho, o trivial e intercepta os limites da fotografia pelas fronteiras da narrativa. Leia mais aqui.

5. Um beijo de colombina, de Adriana Lisboa: há muito esperava ler alguma coisa dela e eis que neste ano essa obra, uma de suas primeiras, ganha reedição. Não deixei a oportunidade passar e descobri uma brasileira das contemporâneas com fôlego para galgar novos espaços na nossa tão "fraca" literatura. Amantes da poesia de Manuel Bandeira ficarão encantados com as possibilidades diversas de se desenhar uma narrativa a partir de sua obra. Leia mais aqui.

6. A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård: um título de uma série que tem deixado todos sem fôlego, sempre que aparece uma nova tradução, não poderia deixar de estar aqui. Principalmente porque esteve em 2014, quando recebemos o primeiro e estará no próximo ano quando nos chegarão outros títulos. Mas, foram dois este ano. E entre um e outro (todos são bons), optei por este. Leia mais aqui.

7. Amar é crime, de Marcelino Freire: este é outro nome fundamental da literatura brasileira contemporânea. Apesar de acompanhar, tal como fazia com a Adriana Lisboa, a obra desse pernambucano há muito, a reedição dessa antologia de contos deu-me o privilégio de ir conhecê-lo. A linguagem concisa de Marcelino, como quem depura ao limite a escrita e os temas tão brasileiros (dos da margem) são duas características marcantes dessa obra e certamente de outras do escritor. Leia mais aqui.

8. Rebentar, de Rafael Gallo: é o primeiro romance do escritor que estreou com um livro de contos, mas demonstra uma maturidade tão centrada, tanto na escolha do tema, na construção da narrativa e composição lexical que qualquer um poderá logo incluí-lo entre as leituras que mais marcaram 2015. O que os leitores agora esperam é o cuidado de Gallo em estudar sem a pressa destruidora das carreiras literárias o próximo passo. Preparado está. Leia mais aqui.

9. Não é meia-noite quem quer, de António Lobo Antunes: saiu muito tardiamente no Brasil e é um livro que, apesar de ter tido contato com ele quando da publicação em Portugal, só comecei a ler muito recentemente (certamente haverá notas de leitura por aqui) porque estive concentrado noutros romances do escritor português, entre eles o ainda inédito por aqui, Não entre tão depressa nessa noite escura (leia sobre aqui). A obra é marcada pelo estilo caudaloso e único da literatura; como terá dito Miguel Real, ninguém escreve como António Lobo Antunes.

10. Memórias de Aldenham House, de Antonio Callado: a reedição da obra do escritor é motivo suficiente para redescobri-lo – ou no meu caso, descobri-lo. Apesar de voltado integralmente para um tema para uns sepultado no passado mas para outros (os de melhor juízo) ainda vivo e latente na sociedade contemporânea a obra é muito atual. Acrescentaria que de leitura fundamental para os que acham o tema sepultado: os malefícios ou como atuava a ditadura no correr da América Latina, que os saudosos celebram, erroneamente, como o menos brando dos regimes totalitários. Leia mais aqui.




BÔNUS

1. Antologia da poesia erótica brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes: sem dúvidas, este foi o trabalho de maior fôlego sobre poesia editado no Brasil em 2015. Nomes reconhecidos, anônimos e por conhecer e os desenhos de Arthur Luiz Piza compõem um mosaico da poesia brasileira desde a formação da nossa literatura. Sem pretensões canônicas e fomentadora da ideia de reabertura das fronteiras do cânone, a obra é também um gesto de conhecer a poesia nacional ainda tão carente de leitores. Escrevi uma matéria sobre aqui.

2. O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques: aí está uma mostra do que de melhor há num cenário e vasto e de rica qualidade, a poesia brasileira. Com esse livro a poeta renova o fôlego de sua poesia e oferece outras possibilidades de acesso ao mundo da palavra. Leia mais aqui.

3. Poemas, de Pasolini: lembro de haver lido alguns poemas do cineasta e romancista italiano quando buscava material do gênero, claro, depois de saber que Pasolini havia ido além do cinema. Mas, notei que por aqui precisávamos de um livro que trouxesse uma mostra significativa dessa outra face; (a mesma reclamação faço sobre a obra poética de Octávio Paz – sabia que a Cosac Naify preparava uma antologia da mesma forma do poeta mexicano, mas com o fim da editora, como esse projeto editorial irá sair, não sei) até que Alfonso Berardinelli e Maurício Santana Dias tiveram o seu trabalho de tradução publicado numa edição com o capricho já em falta no mercado editorial brasileiro.

4. Corpo de festim, de Alexandre Guarnieri: num ano em que o Prêmio Jabuti abdicou das mesmas linhas de força para ouvir as vozes que têm revigorado a cena literária nacional tive a grata surpresa de ver este título que li ainda no prelo e sobre o qual escrevi tão logo a editora Confraria trouxe-o para as livrarias ser classificado como o melhor livro de poesia do ano no Brasil. É possível que haja contraventores, mas é inegável, e todos hão de concordar, a força poética exercida por esta que é a segunda obra poética de Alexandre Guarnieri. Leia mais aqui.

5. Catálogo maçante das coisas comuns, de José de Paiva Rebouças: o segundo volume da trilogia poética pensada pelo poeta já foi publicado, mas este, por ser o que abre o conjunto dos primeiros de seus títulos, é o livro que foi, para mim, desde sua gênese, um dos que observo como fundamentais na nova cena da poesia nacional, sobretudo porque Paiva é tomado pela mesma necessidade de retrabalho com a palavra em exercícios literários como o de Alexandre Guarnieri ao mesmo tempo que se integram a uma tradição poética da nossa literatura. Leia mais aqui.



OS FILMES

1. Praia do futuro, de Karim Aïmouz: preciso de filmes que não negam a capacidade de fazer de um acontecimento aparentemente trivial uma grande narrativa. Aliás, embalado por aquela compreensão de que o cinema enquanto arte imita a vida, são dessas trivialidades que a vida é feita e são elas ainda as responsáveis pelas mudanças muitas vezes almejadas como um necessário giro de 360º que nunca vem. Leia notas aqui.

2. A travessia, de Robert Zemeckis: confesso que este filme me marcou mais pelo exercício de extensão de nervos praticado pelo cineasta na composição das idas e vindas da personagem na corda bamba suspensa do chão a metros suficientes de tornar em pasta o mais robusto dos seres humanos se desaba de lá. Entretanto, há outra história que marcará os expectadores, a necessidade de persistir sobre as nossas ousadias ou metas almejadas e, claro, a forma concisa e bem estruturada com que constrói uma biografia aparentemente simples. Leia mais aqui.

3. No coração do mar, de Ron Roward: fosse esta uma lista séria e este filme não estaria nela. Por mais que seja uma leitura muito bem construída sobre a gênese (ficcional, é preciso ressaltar) e ao mesmo tempo uma releitura do clássico de Herman Melville, o excesso de efeitos especiais (para atender a demanda do 3D) e essa tradição da gravação em estúdio (claustrofóbica!) são algumas das características que matam o filme.

4. Foxcatcher: uma história que chocou o mundo, de Bennett Miller: simpatizo com as produções estadunidenses que, ao invés de recorrer ao fenômeno-clichê de reproduzir uma glória vã da nação, buscam a partir dessa possibilidade uma nova maneira de reler, apontando o grosso escondido pela capa de tinta da história oficial. A transformação de uma relação aparente de treinador e esportista é uma rica metonímia sobre um país que nunca deixou de varrer para a parte mais turva da realidade as marcas que o fizeram grande, desde o esporte. Leia mais aqui.

5. Birdman, de Alejandro González Iñarritu: revisar a ideia de realidade e ficção – o quanto de um é necessário conter no outro para que convença o espectador –, revisar a ideia de crise criativa numa época em que todos os objetos eminentemente artísticos já foram criados ou não há público que apeteça tais produtos, revisar a relação entre a arte e vida; estas são apenas três possibilidades capazes de servir ao espectador desse filme e é o suficiente para, em contato com o exímio exercício de criação de Iñarritu, sobretudo no que se refere a fusão entre todas as artes que dão forma ao cinema, chamar este de uma das melhores produções recentes. Cesar Kiraly escreveu muito bem sobre aqui.
 
6. O jogo da imitação, de Morten Tyldum: nenhum expectador é o mesmo diante da naturalidade e da força dramática com que Benedict Cumberbatch vive o matemático Alan Turing, o inventor do que seria um protótipo dos modernos computadores. O filme tem uma narrativa muito bem construída e foge da necessidade de produções dessa natureza que almejam pintar o todo da vida do biografado. Leia mais aqui.

7. Perdido em Marte, de Ridley Scott: o retorno do cineasta ao cinema de ficção científica foi, certamente uma das produções do gênero que melhor pude ver na grande tela. No item seguinte indico outro título marcante de 2015, mas o grande serviço desta adaptação do livro de Andy Weir foi a de nos atualizar a quanto estamos do projeto de povoamento extraterrestre e, claro, reafirmar duas formas contraditórias que vimos assumindo desde os primeiros empreendimentos de natureza extraordinária: nossa capacidade grandiosa de criação e nossa insignificância ante o universo. A essas duas forças acrescentaria ainda nossa estranha possibilidade de se adaptar em condições adversas. Leia mais aqui.

8. Um estranho no lago, de Alain Guiraudie: o profundo estágio de solidão que acomete os indivíduos ou a necessidade de se manter na linha do prazer – uma e outra coisa estão imbricadas e são estes os limites investigados pelo cineasta francês num filme que arranha toques de suspense e de pornográfico mas não é nem uma coisa nem outra e sim só uma leitura quase ensaística produzida a partir do jogo de experimentações criado com fins determinados para a composição da narrativa cinematográfica. Leia mais aqui.

9. Homem irracional, de Woody Allen: inesgotável – é o termo que se pode caracterizar o trabalho do cineasta estadunidense. Crítico de si próprio, Allen renova a aposta no ideal do indivíduo em crise de criação e obriga o crítico a perscrutar por outro ângulo sua forma já tantas vezes repetida de fazer cinema. No mais, vigoram a elegância, a coincidência como elemento motor de nossas vidas e o desejo de com essas duas características contar uma história. Rafael Kafka também viu este filme e fez uma leitura sobre publicada aqui.

10. Ponte de espiões, de Steven Spielberg: o retorno do criador de filmes de fantasia e ficção científica ao território do cinema histórico. Agora para investigar a relação Estados Unidos e União Soviética durante o período da guerra fria. Toda uma narrativa de traço vivamente realista e minimalista (no que se refere à composição da cena e da narrativa) para dizer que o inimigo é um fantoche de vento criado pela interrupção do diálogo em prol da suspeita. O grande trabalho do cineasta com este filme foi o de mostrar que o ambiente de tensão desse tempo (e de outros) é motivado só (e apenas só) pelo medo de aproximar-se verdadeiramente do desconhecido – ao menos isso é o que prevalece entre a apologia escancarada do cineasta em expor o lado estadunidense da maneira mais patriótica e nacionalista possível (típico da cena hollywoodiana).


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