As leituras de Virginia Woolf


Você gostaria de saber o que liam – e o que diziam – seus escritores favoritos? Na web há um projeto, o UK Reading, constantemente em atualização, que apresenta facilmente, através de uma base de dados aberta que pretende documentar a história da leitura na Grã-Bretanha entre 1450 e 1945 e compreende, entre outras coisas, as experiências leituras de escritores famosos como Charles Dickens, Katherine Mansfield, Henry James ou Virginia Woolf. Sobre esta última há muita informação e aqui selecionamos alguns de seus comentários sobre diversos livros e escritores, em cartas escritas em distintas épocas e à distintas pessoas.   

1. Sobre Crime e castigo, de Dostoiévski
“Você não pode imaginar com qual desejo caímos sobre o material impresso, tantas vezes adiado pela necessidade de escrever. Li três novos romances em dois dias. Leonard desfrutou de Old Wives Tale como gatinho com um novelo de lã. Depois desta vertiginosa correria, agora corri com toda velocidade até Crime e castigo; 50 páginas antes do chá e vejo que só restam 800, assim terminarei ele também em pouco tempo. É completamente evidente que Dostoiévski é o melhor escritor de todos os tempos”.

2. Sobre Mulheres apaixonadas, de D. H. Lawrence
“Estou lendo Mulheres apaixonadas de D. H. Lawrence, atraída pelo retrato de Ottoline (Morrell) que aparece de vez em quando... Não há suspensa nem mistério, a água é toda esperma, me chateia e decifro seus mistérios com demasiada facilidade. Só uma coisa me desconcerta: o que significa quando uma mulher (Gudrun) se põe a dançar eurritmia em frente um rebanho de gado?”

3. Sobre Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust
“Ontem à noite comecei o volume 2 (À sombra das raparigas em flor) e me propus ficar presa nele todo o dia. Ai, se eu pudesse escrever assim! Choro! No momento é tanta a incrível vibração, saturação e intensificação que me produz (quase há algo sexual nisso) que sinto que posso escrever assim. Quase ninguém estimula tanto os nervos da escrita em mim: é uma obsessão.”

4. Sobre Dom Quixote, de Miguel de Cervantes
“Estou ainda lendo Dom Quixote; confesso que me prende um pouco, apesar de não ser uma narrativa fluida. Mas tem essa vitalidade livre, dispersa, dos grandes livros, o que faz com que continue a leitura”.

5. Sobre As asas da pomba, de Henry James
“Acabei de ler As asas da pomba e faço este comentário. Suas manipulações (de Henry James) se mostram tão elaboradas até o fim da obra que ao invés de sentir o artista só pude sentir o senhor que está apresentando a narrativa. Acredito que perdi o poder de perceber a crise. Converti-me simplesmente em alguém demasiadamente espirituoso”.

6. Sobre Ulysses de James Joyce
“Terminei o Ulysses e creio que é uma obra falida. Ao meu juízo, não lhe falta talento, mas de baixo quilate. O livro é confuso. É emaranhado. Pretensioso. De baixa linhagem, não apenas no sentido comum mas também na acepção literária. Com isso quero dizer que um escritor de primeira linha sente pela literatura um respeito tal que impede servir-se do bilhar; de surpresas; de fazer palhaçadas. Recorda-me  constantemente um colegial com tendência ao comportamento brutal, cheio de humor e capacidade, mas tão crítico de si mesmo, tão egoísta, que perde a cabeça e se converte num sujeito extravagante, rebuscado, vociferador, torpe e consegue que as pessoas amáveis tenham lástima e até as pessoas sérias se irritem; e possui esperança de que todo o passado deixará de existir quando crescer; mas como Joyce tem quarenta anos, não parece provável que que assim ocorra. Não o li cuidadosamente; e só uma vez; é muito obscuro; portanto seguramente devo ter deixado de perceber seus méritos numa proporção superior à justa”.

7. Sobre O paraíso perdido de Milton
“Embora não seja a única pessoa em Sussex que lê Milton, quero escrever minhas impressões sobre O paraíso perdido. E a palavra impressões já descreve bastante bem o tipo de coisa que vem na minha cabeça depois de lê-lo. Deixei muitos enigmas sem decifrar. Deslizei facilmente para provar o sabor completo. Mais que suave, que forte, que elaborado, é tudo. Que poesia!”

8. Sobre Medida por medida de Shakespeare
"Eu ouso dizer que você [Saxon Sydney-Turner] compartilhará do meu sentimento de que Asheham é o melhor lugar no mundo para a leitura de Shakespeare. Asheham é muito lindo no momento. Estive sentada no jardim toda a tarde, lendo Medida por Medida, olhando para as árvores, e pensando tanto em você como de qualquer coisa".

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