Os Buddenbrook, de Thomas Mann

Por Luiz Fernando Moreno




Thomas Mann terminou Os Buddenbrook, seu primeiro romance de grande extensão, na primavera do ano de 1900, “depois de dois anos de trabalho frequentemente interrompido”, segundo relembra em sua breve autobiografia. Apenas quatro anos antes havia decidido abraçar o ofício de escritor. O êxito obtido por um completo conto, “A queda” (1894), o animou a escrever essa obra. Era um estudante desinteressado e a generosa mesada mensal obtida da venda dos negócios da família depois da morte de seu pai lhe permitia viver como boêmio, às vezes em Munique e, outras, na Itália. Depois de outra narrativa de sucesso, “A vontade de ser feliz”, apareceu essa pequena joia que é “O pequeno senhor Friedemann”, um conto de maior extensão que, dos seus precedentes, foi aceito pela prestigiada revista cultural Neu Deutsche Rundschau, da casa editorial Fischer. Foi da raiz desta pequena obra que o atento Samuel Fischer, advertindo o talento do jovem literato, o animou que compusesse um romance, com a promessa de publicá-lo no seu selo editorial.

Durante o verão de 1897, na pequena cidade italiana de Palestrina, Thomas terminou um primeiro grande esboço do romance e concluiu os primeiros capítulos, e alguns meses depois, instalado de novo em Munique, em pleno bairro dos artistas, o Schwabing, dedicou-se a desenvolver e polir aquela obra que não parava de crescer, pois seu roteiro se prestava a isso: o jovem havia se proposto contar nem mais nem menos que a história da decadência de uma grande família burguesa de comerciantes estabelecida e vinda da cidade de Lübeck: os Mann, sua própria família. Cheio de entusiasmo, lia fragmentos da obra em curso para sua mãe, irmãos e amigos, e estes celebravam com certo alvoroço; riam da boa maneira com as passagens caricaturescas da história, bordadas com tanto acerto pelo agudo artista, mas duvidavam de que aquelas mostras de talento chegariam a culminar numa obra de arte completa e grandiosa.

Mann contava 25 anos quando terminou Os Buddenbrook; o dinheiro da família dava para pouco e, já então, ganhava a vida trabalhando como redator na revista literária e satírica Simplicissimus, posto que abandonaria em seguida já que trabalhar para outros não era bem o seu forte. Com a publicação do romance, sua vida deu um salto para a fama. Fischer recebeu o volumoso manuscrito com reticência: “A grande extensão da obra não é algo que me seduza”, escreveu ao autor. Mas ao começar a leitura do livro se mostrou interessado em publicá-lo apenas se Mann consentisse cortá-la; a esse respeito não coube discussão: o autor se mostrou impassível e assegurou que a extensão do romance “constituía uma de suas propriedades essenciais”.

No fim, Fischer apostou na obra e publicou em dois tomos numa tiragem de mil exemplares a um preço bastante alto. Apesar disso, os livros foram todos vendidos e, em começos de 1903, veio a lume num só volume e a um preço menor. As vendas cresciam de tal maneira que em outubro daquele mesmo ano houve que lançar uma nova edição, esta de dez mil exemplares. Thomas Mann se converteu no escritor da moda, e o projeto de viver para e da literatura se fez realidade. A fama lhe abriu as portas à melhor sociedade de Munique reportando-lhe grandes benefícios para o futuro, entre eles,  seu vantajoso casamento com a rica herdeira de origem judaica Katia Pringsheim.

Seguiram outras obras, tais como Sua alteza real ou as excelentes novelas Tonio Kröger e Morte em Veneza, e em 1929, a Academia Sueca lhe concedeu o Prêmio Nobel de Literatura, “em especial pelo seu grande romance Os Buddenbrook, que, no curso dos anos, obteve um reconhecimento cada mais sólido, como uma obra clássica de nosso tempo”. Em 1930, alcançava um milhão de exemplares vendidos só na Alemanha; em 1932, quando do levante do nazismo, o grande escritor recebeu uma sinistra ameaça pelo correio: um exemplar quase queimado da obra que o consagrou; assim as chamadas figuras de bem de seu tempo honravam o talento do escritor.




Passado o tempo, este romance tão popular viu-se um tanto eclipsado pelo fulgor de A montanha mágica e Doutor Fausto, ambas de valor “mais intelectual”, o que não é justo, visto que aquela está a altura desses e em algumas circunstâncias talvez os supere. De Os Buddenbrook nasce todo o Mann de depois. Mais amável e convencional que os outras obras sempre mencionados, de modo algum é também um romance de tese nem de sisuda filosofia – certamente, a menção a Schopenhauer quase no fim do livro, tão banal pelos seguidores deste filósofo, embora tenha sua migalha, não deixa de ser uma anedota, uma menção de Mann a um dos seus autores preferidos e cuja metafísica desdenha o protagonista. Mas, Os Buddenbrook, romance de marca do século dezenove, se acha na corrente de obras de largo fôlego como as de Zola, Balzac ou Tólstoi – pelo visto, um retrato deste imenso escritor acompanhou Mann enquanto o redigia – e até no grande romance inglês do século XIX. Trata-se de um relato, em definitivo, muito bem contado, equânime e cheio de surpresas, que seduz o leitor pelo seu estilo desenvolto, pela riqueza de detalhes e a encantadora sensibilidade quase “feminina” quanto proustiana, da qual Mann faz uso na descrição de objetos, roupas e pessoas.

O tema, como já mencionamos, foi definido pelo próprio autor – “Minha procedência familiar está descrita com minúcia em Os Buddenbrook”. O relato percorre as vidas de quatro gerações de Buddenbrook, “casa burguesa de renome centenário”, desde o avô Johann, descendente direto do fundador da família, até o pequeno Hanno, o último membro varão, morto em 1877. Mas, embora a estirpe familiar, unida à empresa comercial que a sustém, perdure durante em torno de cem anos, Mann se centra em resenhar acontecimentos que cobrem apenas quatro décadas, período em que os membros das distintas gerações coincidem entre si. 

Através dos representantes da terceira geração, os irmãos Thomas, Tony, Christian e Clara, conheceremos seus pais e aos Buddenbrook mais velhos, seus avós, e bisavós; mas também os pequenos Erika e Hanno. E junto a estas personagens principais, também a uma variedade de figuras secundárias, tais como a comilona prima Tilda, a corcunda Sesemi Weichbrodt ou a azeda parentela composta por Frederike, Henriette e Pfiffí. Advogados, senadores, prefeitos, padres e médicos; pescadores, senhoras, criadas povoam o romance, também rico em ambientes, desde o salão burguês “das estátuas” pelo qual transita os Buddenbrook, até as rochas da praia da Travemünde.

Como afirma a ideia central da trama, Os Buddenbrook se constitui no acompanhamento da terceira geração de uma família que dilapida a fortuna acumulada com tanto empenho pelos antecessores, dotados com mais ilusão e espírito de sacrifício e impulsionadores daquela riqueza. Tony e seus três irmãos serão testemunhas do declínio familiar, responsáveis por sua vez, a contragosto, pela liquidação da empresa, uma vez que a casa Buddenbrook ruirá sem uma solução que a salve. A família tem má sorte; seus membros deixam de estar a altura do que se espera deles; tanto Tony como Thomas são os mais conscientes de seus deveres para com a manutenção do esplendor que carregam com seu sobrenome, mas ambos cometeram erros e aos dois o destino os trairá.

A esperta e doidivana Tony se casará duas vezes com personagens cada uma mais ridícula que a outra: o senhor Gründlich, um vigarista, e o bávaro Permanender, um grosseiro bebedor de cerveja. É mãe de uma menina insípida, Erika, que tampouco será feliz, ao casar-se com um funcionário que acaba preso. O terceiro irmão, Christian, é um pobre despojado, incapaz de algo sério, inconstante, a “ovelha negra” da família. Enquanto Clara é a mística e se casa com um pastor protestante; mas irá se separar e morrerá deixando seu dote nas mãos de seu espirituoso marido.

Thomas, senador e último magnata da saga familiar, cópia talvez do pai do próprio Thomas Mann, é um homem cumpridor de seu dever, a perfeita encarnação do burguês pulcro e acomodado, um aristocrata de trabalho, preso aos princípios e exigências de sua classe, comprometido com sua cidade tanto como com seu negócio e seus empregados, a quem os trata com suma cordialidade. Seu idealismo e até sua poesia consistem em imaginar-se fiel a um grande princípio ético que o culmina a sacrificar seus instintos pelo bem da família e pela empresa para perpetuar e engrandecer sua grande obra levantada por seus antepassados. 

Mas Thomas está só com seus nobres princípios; a irresponsabilidade o ultrapassa e, alto, quando o infortúnio se aproxima, não tem apoio suficiente nem em seu inútil irmão nem nas mulheres que fazem parte da família, cada vez mais debilitada. Nem sequer seu casamento com a gélida Gerda Arnoldsen, bela, intérprete de violino e entusiasta da música de Wagner, embora muito representativa, o faz feliz. Deste casamento nascerá Hanno, um menino de caráter e natureza opostas aos do pai, uma “alma de arista”, músico precoce e extremamente sensível, mas inútil para os negócios comerciais e sem a garra que necessitaria um digno sucessor. É curioso descobrir depois  quanto se parecerá este Thomas ficcional ao meticuloso, reprimido e frio Thomas Mann escritor. Mas, por contraste, o mesmo ocorre com o pequeno Hanno, cujos dias de escola, seus temores e até seu amor de infância recordam as próprias experiências do sensível autor.

O declínio da família foi inevitável, tal como foi o daquele mundo de burgueses que terminaria com a Primeira Guerra Mundial e que supôs o fim “da idade da inocência”. Pessimismo fin de siècle no qual “tudo se acaba”, tão bem contado pela sábia pena de Mann, quem já plasma suas obsessões no romance, sobretudo, adverte seu premente interesse pelos processos de enfermidade e morte, que abundam no relato; ao fim, a Parca é a que sempre chega para transtornar tudo, e rara vez só para conceder a paz e o silêncio.

Em suma, a história da família Buddenbrook arma-se desde as primeiras páginas, quando o único que se desenvolve nela é o irrefreável transcurso da simples vida cotidiana e o passar dos anos em que os membros da família vivem, envelhecem e morrem. E são justamente as descrições destes acontecimentos, os casamentos, os nascimentos e as mortes que dotam de realidade esta magnífica e grandiosa narrativa. Tudo isso contado de forma tão apaixonada que a leitura desse romance comove e assombra, provoca um gozoso desgosto e nos enche de melancolia. 


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