Samuel Beckett e o fracasso grandioso no cinema

Em primeiro plano: Samauel Beckett e Buster Keaton no set Film. O escritor irlandês sabia esgotar seus atores para deixar passar para a tela apenas o talento. Em Film, o rosto famoso de Keaton pouco aparece, já que o roteiro sugere um perseguido por uma câmera, o que obriga o ator a posicionar-se quase sempre de costas na tela. 


Muito já se disse sobre a relação de Samuel Beckett com o cinema. Mas poucos contaram com o extraordinário material do qual dispõe o cineasta estadunidense e restaurador de filmes experimentais e independentes Ross Lipman, autor do ensaio fílmico Notfilm, que recorda Film, o único trabalho do gênero do Prêmio Nobel de Literatura irlandês e um trabalho que, apesar de sua atual altura lendária, o escritor viu como se um fiasco.

Notfilm não só reúne testemunhos de amigos e personagens que estiveram ligados diretamente à aventura de Beckett na Nova York dos anos de 1960; também reconstrói uma sequência inicial que foi descartada por ele, além de resgatar fragmentos, provas e experimentações visuais feitas pelo diretor de fotografia, Boris Kaufman – irmão do também cineasta Dziga Vértov. O trabalho de sete anos, acrescenta ainda uma série de gravações de voz (já conhecidas dos especialistas, mas agora tornadas públicas) com as discussões do autor irlandês com o diretor de Film, Alan Schneider, e o produtor, Barney Rosset. Isto é, um documento riquíssimo para os que sempre se queixaram de pouco haver de congruente sobre essa face do escritor.

Notfilm inicia com Lipman, narrador onipresente, declarando seu sentimento de culpa ante seu trabalho: “A arte não deveria ser sobre a arte, mas sobre a vida. Desconfio dos filmes que falam de outros filmes”, diz antes de aventurar-se no hermético mundo de Film, iluminando com sua indignação não só a apaixonante relação de Beckett com o cinema como meio artístico, mas também com a própria natureza do material do cinema.

De alguma maneira, Beckett previu o momento em que vivemos ao apontar sobre esse aspecto formal e físico do cinema. Sabe-se que o escritor alentou o sonho pela sétima arte logo na juventude; em 1936 chegou a escrever uma carta para Sergei Eisenstein com intenção de integrar a Escola Estadual de Cinematografia de Moscou. “Peço-lhe me considerar um cineasta sério, digno de ingressar em sua escola. Poderia ficar por pelo menos um ano”, escreve. Mas jamais obteve uma resposta e talvez por isso seu destino foi o que hoje conhecemos.

Mas, nunca terá abandonado totalmente o sonho da juventude. Este reacendeu quando, pelo seu caminho, atravessa Barney Rosset, o mítico editor da Grove Press, onde Beckett dividia catálogo com figuras como Jean Genet, D. H. Lawrence, Henry Miller ou mesmo Che Guevara. Isto é quando o escritor já tinha algum renome, novamente a ideia passada lhe tentou. Produtor frustrado, Rosset perseguia a ideia de que alguns de seus grandes autores, como Ionesco, Harold Pinter e o próprio Beckett escreveriam um filme que seria produzido por ele. Desses três apenas o irlandês – também frustrado mas ambicioso tanto quando o editor – levou adiante a ideia.

Lipman relata que visitou Barney quando começou a restaurar Film – trabalho impulsionado pela Anthology Film Archives e financiado pela National Film Preservation Foundation e The Film Foundation, de Martin Scorsese – e descobriu em seus arquivos um material surpreendente, o maior deles, toda a sequência inicial da obra que havia sido dado por perdida.

Rosset morreu em 2012; estaria satisfeito com o trabalho agora revelado – os dois, ele e Beckett, conviveram por três semanas na casa de campo que o primeiro havia comprado de Robert Motherwell e que havia sido construída pelo arquiteto francês Pierre Chareau, uma preciosa estrutura de metal e madeira com ares de hangar, luminosa e aberta. Conta-se que Beckett passou maior parte desse tempo recluso e forçou muitos da sua equipe ao mesmo; apesar de fascinado pelo cinema, o escritor tinha verdadeira ojeriza pelas câmeras e gravadores – esses eram objetos expressamente proibidos quando na sua presença. Apesar disso, Rosset conseguiu registrar as conversas dos preparativos de Film e só no final de sua vida que Beckett soube da existência desse material.  

A primeira opção de Beckett para protagonizar Film havia sido Zero Mostel ou o ator irlandês Jackie MacGowroan, que tinha interpretado Lucky na peça Esperando Godot. Charles Chaplin também esteve cotado. Mas optou por Buster Keaton – de quem o irlandês era já há muito fã e talvez por estratégia de levar o ator a repensar em registrar algo de Beckett, quando ela já havia sido sondado para fazer a versão de Esperando Godot nos Estados Unidos e recusou-se. É célebre também o muro de incomunicação que se levantou entre os dois gênios. Já no primeiro encontro, a velha e estoica figura do cinema mudo dava mais atenção a uma partida de beisebol e a cerveja que bebia. Num dos momentos mais íntimos de Notfilm, o ator James Karen, amigo de Keaton, recorda o alcoolismo que havia levada a estrela para a decadência. Relembra que numa ocasião, quando recebeu alta de uma clínica de desintoxicação onde praticavam um brutal sistema de limpeza, Keaton encontrou-se tão só na volta para casa que não duvidou entrar num bar e beber numa sentada quinze Martini.

Quando filmou Film não ficava um só dia sem suas cervejas. “Alguma dúvida sobre o roteiro, Buster?”, perguntam Beckett, Schneider e Rosset numa das gravações. “Não” – responde. “E o que lhe parece?” Os três ficam sem resposta. Supõe-se que nunca Keaton tenha lido o texto e foi sua companheira, Eleanor, quem leu para ele.  

Empecilhos à parte, em setembro de 1965, a obra estreou no Festival de Veneza. Keaton assistiu a projeção ao lado de outras importantes figuras, como Fellini, Visconti, Antonioni e Godard; foi aplaudido de pé por cinco minutos – numa época em que isso, de fato, significava muita coisa. O ator emocionado, visto que poderia ter se dado mais aos olhos de Beckett, chegou a dizer que aquela era a primeira vez que visitava um festival de cinema e esperava que fosse a última. E sempre que perguntado pelo filme, respondia desconcertado que estava confuso na hora e continuava confuso, o que leva a concordar que sempre houve um desdém do ator pelo escritor, produto possivelmente pela impossibilidade de entender o plano intelectual designado por Beckett com esse trabalho.

Também não nada sofisticado na trama de Film. O., uma figura mascarada que veste um casaco de grandes dimensões é perseguido por E. (a câmera, que para o espectador é ele próprio) está desesperado, em fuga de qualquer perspectiva que lhe coloque na condição de ser visto. A perseguição dá-se ao longo da Pearl Street, numa área bombardeada próxima a Manhattan, e na extremidade de uma escadaria. Numa primeira ação ele colide com um velho casal que está vestido no pitoresco estilo da era vitoriana e os olhares deles são perturbados quando confrontados com O. e E. Outro encontro semelhante se dá na escada de um prédio, desta vez O. esbarra numa senhora carregando flores.  É um filme sobre o trabalho de percepção do olho, o confronto entre perceber e ser percebido, dois aspectos fundamentais para compreender a estética cinematográfica de Beckett.

Mais tarde, o próprio escritor queixou-se não saber ao certo do que se tratava o roteiro de Film. O título não é uma obra-prima, mas o enigmático vazio que se cria entre a intenção de uma obra e o que finalmente ela alcança é algo inspirador e que seguirá produzindo perguntas – ainda mais quando provocadas como no retorno agora feito através de Notfilm.  

Ligações a esta post:


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A atualidade da tragédia grega

É urgente redescobrir a poesia de Hilda Hilst

Ernesto Sabato, algum testamento

Dezesseis obras imprescindíveis ganhadoras do Prêmio Pulitzer

Em teu ventre, de José Luís Peixoto

Boletim Letras 360º #216

A violência como produto humano

Café Society, de Woody Allen

A genial arte de escrever em pé

Mães de tinta e papel: onze livros