Boletim Letras 360º #211

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Segunda-feira, 20/03
>>> Brasil: Um livro, dois inéditos: edição reúne textos de Friedrich Schlegel sobre a poesia
O autor foi uma voz determinant…

A capa vazia mais completa do mundo

Por Agustín Fernández Mallo




No passado 16 de junho, e como todo ano nessa data, se celebrou o Bloomsday, momento no qual se recorda Lepold Bloom, protagonista do romance Ulysses, de James Joyce, assim como o dia em que se desenvolve sua trama.

Não é incrível que a capa da primeira edição (1922) do, seguramente, livro mais influente da literatura do século XX seja precisamente esse deserto azul esverdeado? Poderia hoje se editar um livro com semelhante esvaziamento facial? Ou é esse vazio seu acerto e reivindicação? Salvo honrosas exceções não creio que alguém se atreva hoje a colocar no mercado um romance com uma capa desenhada dessa maneira. Só o gênero da poesia ainda admite tamanho descaso anti-publicitário, o que de certo modo é lógico; os leitores de poesia são tão fieis, tão absolutamente fieis, que pouco importa o desenho da capa.

Se me ocorre agora pensar que o mundo está encapado, tem uma capa, quero dizer, com os livros não ia ser por menos. E suponho que não sou o único que alguma vez tenha se perguntado que diabos é a capa de um livro, para que serve, o que anuncia ou o que destrói, que esperança alenta ou frustra no leitor, inclusive me pergunto para que serve a própria materialidade de uma capa de livro além de proteger o texto da chuva e da poeira. 

Estive inteirando-me sobre este assunto: supõe-se que as ilustrações que acompanham um texto foram introduzidas na Idade Média, sobretudo para a Bíblia e demais escritos religiosos, a fim de que a analfabeta multidão pudesse seguir a Palavra do Senhor sem se perder neste outro caminho mais sinuoso e sem dúvida evidente que é a palavra escrita. Agora, ilustrar a capa de um livro parece que sempre tem respondido por um efeito de chamada, uma reivindicação publicitária. 

Sejamos sinceros: todos temos reprovado ou comprado livros por um instintivo critério de afinidade com as capas. E aqui se complica a coisa, pois inclusive dentro de nosso âmbito – chamemos Ocidental ou ocidentalizado – aparecem lacunas culturais intransponíveis. Por exemplo, chama a atenção que no mercado da edição anglo-saxã livros literariamente respeitados tenham capas de romance de bancas de jornal; por manifesta agressão visual, numa edição em espanhol jamais funcionaria.

Entretenho-me então em olhar na rede coisas próximas de como se desenha a capa de um livro e encontro plataformas nas quais se dizem coisas como, “por melhor que um livro seja, o que vende é sua capa”, ou, “desenhar uma boa capa de um livro é ingrediente fundamental se queremos triunfar na venda do mesmo”. Se assim fosse acredito que não haveriam existido a maioria dos livros bem vendidos. Mas a ordem que mais gosto é esta outra, “uma capa deve parecer PROFISSIONAL”, e dizem assim, com maiúsculas, como quando nos romances maus querem nos dar a entender que uma personagem fala gritando. Bem, a capa da primeira edição de Ulysses de James Joyce parece contradizer ponto por ponto todos esses lemas de mercado.

Li pela primeira e última vez integralmente Ulysses pouco depois de minha adolescência; aparecia em sua capa a pitoresca cena de uma rua, supostamente de Dublin, que não era mal mas eu já havia visto reproduzida aquela outra capa chamativamente vazia da edição original na época e me atraía muito mais que a da minha edição. O acerto se mostra precisamente em seu vazio, que visto de hoje me recorda não só o turvo céu de meio-dia dublinense mas muitas outras coisas: a radical solidão (não é piada) de um detector de partículas antes de ser atravessado por um jato de elétrons, o vazio interestelar enfrentado pelos astronautas dos romances de Bradbury, ou a advertência de Borges segundo a qual o labirinto mais endemoniado é o deserto por, precisamente, estar vazio, e também me recorda como imaginei aquele lugar chamado Região que em algum lugar do Noroeste da Península Ibérica Juan Benet inventou para nós, e também me recorda uma pista de patinação, a tela de um primitivo Smartphone, um quadro de Rothko e, enfim, não seguirei por este caminho, que eu mesmo me canso.

Parece claro que o acerto desta capa é precisamente sua não-capa. Tem, além de tudo, a vantagem de poder fazer-se intervenções nela; é possível pintá-la, decorá-la e enchê-la com anotações como se costumava fazer nas margens das páginas. Dentre as intervenções conhecidas, a que mais me gosta é a de um tal Steven Bond, quem na capa original fez brotar outra belíssima capa, e reescreveu o livro, inclusive introduzindo como personagens Beckett, Descartes e não sei mais quem (Ulysses 2, Murder in Paris). Tenho para mim que isso não havia sido possível sem uma capa tão METAFÍSICA – e agora sim que convém dizer assim, com maiúsculas, como gritando. 

* Este texto é uma versão livre de "La portada vacía más llena el mundo" publicado na revista Zenda.

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