As últimas palavras de Christopher Hitchens

Por Vinicius Colares



Christopher Hitchens era um confesso amante do bom diálogo. Entendia a importância do debate público e, um adorador de George Orwell, levava aos seus artigos uma prosa inspirada pelo autor de A revolução dos bichos. Sempre o respeitei por essas razões  -  embora não concorde com alguns dos posicionamentos que marcaram sua postura sempre “ofensiva” (como contrário de defensiva e não do vinda do verbo ofender). Em muitos momentos de sua vida intelectual, Hitchens foi acusado de um tom proselitista em favor do ateísmo  - acusações, em alguns casos, pertinentes. 

Ainda assim, sua autobiografia Hitch-22 conta até hoje com um espaço reservado em minha estante. Ao lado dela, desde setembro de 2012, outro livro de Hitchens preenche mais um pouco do espaço reservado às biografias. Foi lançado nesse período o Últimas palavras (Globo Livros), organizado por Graydon Carter, editor e colega do autor na revista Vanity Fair.

São menos de 100 páginas. Deparei-me à época, sem surpresa, com um Hitchens afiado, sarcástico e completamente livre de autopiedade. Em 2010, o intelectual britânico, descobriu durante a turnê de lançamento de um dos seus livros que um tumor  -  um “alienígena”, como ele mesmo chama - havia se instalado em seu corpo. Christopher foi diagnosticado com câncer no esôfago. 

A doença que virou o principal assunto de suas colunas durante esse período (até o fim de 2011) venceu a “batalha”. E é justamente sobre essa briga injusta que Hitchens escreve algumas das suas melhores linhas. 

Apresentando-se como um novo cidadão do país dos doentes, a Tumorlândia - terra com espírito igualitário, onde “parece não existir racismo”-, o relato de Christopher sobre o desenvolvimento da doença é perturbador.

Hitchens lembra que em seus artigos mais recentes, antes de receber o diagnóstico de câncer de esôfago, escreveu que gostaria de estar consciente e desperto quando chegasse sua hora. O enfrentamento com a doença, porém, faz com que o indivíduo reveja alguns preceitos conhecidos e, até aquele momento, confiáveis. 

O autor diz que a máxima atribuída a Nietzsche  -  was mich nicht umbringt macht mich stärker (o que não me mata me fortalece) - , já não é usada por ele com a mesma convicção de antigamente. Para Christopher a citação, que soa como poesia na sua língua original, pode até encontrar sentido no campo das emoções. Em uma relação de amor e ódio, por exemplo, adquire-se determinada experiência e essa pode lhe fortalecer para um próximo relacionamento. Mas no que se refere ao mundo físico bruto é difícil imaginar-se ganhando forças enquanto perde lentamente o paladar.

Surge mais adiante o que Martin Amis chamou de um dos retóricos mais aterrorizantes que o mundo já viu. Não é comum, afinal, que uma pessoa diagnosticada com câncer tente destruir o clichê de que existe uma “batalha” contra esse mal.

Assumindo ter apreço pela imagem do guerreiro solitário que arrisca a própria vida por um ideal ou pelo bem da maioria, Hitchens vê esse imaginário de luta como inalcançável em seu caso. Por quê? O próprio cidadão da Tumorlândia responde, assumindo que “quando pessoas gentis ligam uma enorme bolsa transparente de veneno ao seu braço […] a imagem do soldado ou revolucionário heroico é a última coisa que lhe ocorre. […] Você se sente atolado em passividade e fraqueza”.

Imagine o cenário. 

Primeiro a perda de cabelo e as dificuldades com a alimentação. Depois a forma inerte com que deve-se entregar ao tratamento e o medo de “perder” a voz enquanto nota uma mudança radical na fala. 

Não é simples ter de lidar com todos esses problemas sabendo da possibilidade de ver fugir a própria lucidez. Essa rotina incomoda um homem que se encontra em constante confronto com a ideia de vida e morte de uma maneira direta. Christopher sabe que, pela forma com que seu tratamento caminha, a possibilidade do inevitável é cada vez maior. O lado sensível do intelectual britânico surge pela primeira vez.

Deve-se tomar um cuidado essencial aqui. Não associar diretamente sensibilidade a sentimentalismo. O ser humano confrontado com seus limites é sensível, vulnerável. Os sentimentos que vão aflorar nesses momentos são variáveis. Dependem do indivíduo e da sua história particular.

Em Hitch-22, Christopher escreve que “as guerras mais intensas são as civis, assim como os conflitos pessoais mais intensos e destruidores são os internos”. Pois imagine a seguinte missão: fazer tudo o que for possível para manter-se vivo enquanto, simultaneamente, planeja tudo para deixar uma “base” pronta para sua mulher e filhos em caso de uma tragédia.

Esse Hitchens tocado pela sensibilidade gostaria de ver o casamento dos filhos. Assume que queria estar presente quando o World Trade Center estivesse em pé novamente. Desejos que sensibilizam pela simplicidade em contraste com uma doença terminal.

Quem já teve contato com a obra de Hitchens, a esta altura se pergunta: e religião? Ele não falou de Deus nas suas últimas palavras?

Famoso pelo posicionamento anticristão, o jornalista formado em Oxford não fugiu do que sempre chamou de “ilusões religiosas”. O tema surge no livro, inicialmente, quando Christopher cita um texto retirado da internet, onde um fiel deixa a sua opinião sobre seu estado de saúde: Hitchens está sofrendo por ter sido um blasfemador. 

A resposta por parte do pecador não poderia ter sido diferente. Por que ele seria punido com o câncer? Por que não com um raio ou algo tão assustador quanto? Nesse caso, a mesma força sobrenatural que hoje castiga um infiel de maneira “justa”, erra o alvo e acerta em cheio algumas crianças que sofrem com leucemia? 

Ao mesmo tempo, de maneira nada seletiva, o câncer usado por essa “divindade vingativa” costuma atingir um número enorme de próstatas  - nos homens que vivem tempo suficiente para isso. Questionamentos que já estavam presentes no best-seller Deus não é grande, foram apenas revisitados. E o impacto que suas palavras sempre tiveram, duplicam o poder de alcance no momento que nos defrontamos com um homem que sente a proximidade da escuridão eterna.

É nesse formato extremamente pessoal e com um tom confessional, que o leitor encontra fragmentos inacabados pelo autor no último capítulo. Todos escolhidos por Graydon Carter. Christopher escreve, por exemplo, sobre o tumor que se instalou em seu corpo. Reflete que “o alienígena estava se enterrando em mim enquanto eu escrevia as alegres palavras sobre minha própria morte prematuramente anunciada”. 

Em outro desses fragmentos, Hitchens escreve uma espécie de lembrete para si mesmo. Anota que “deve tomar enorme cuidado para não ter autopiedade ou ser autocentrado”. No que se refere ao Últimas palavras, o dever foi cumprido com sucesso.

George Orwell escreveu que a imaginação, assim como certos animais selvagens, não se reproduz em cativeiro. Hitchens, porém, não precisou ser imaginativo em seus momentos finais. A lucidez e clareza com que viveu seu último ano, fez com que, em suas últimas palavras, o intelectual continuasse fazendo o que mais gostava. Escreveu e, novamente, dialogou. 

Revisitando esses textos acabei sentindo o mesmo misto de incômodo e prazer da primeira leitura. Afinal, lutamos uma batalha perdida. O que nos resta é, de fato, idealizar a vida do guerreiro que vence mil inimigos antes de ser derrotado por apenas um: a morte.


***
Vinicius Colares é jornalista graduado pela Universidade Federal de Pelotas. Repórter e redator. 


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