Sobre o conto inédito de Mark Twain que regressa à vida

Mark Twain com sua família em Hartford. 

Paris, 1879. No quarto de um hotel, um pai acaba de colocar suas duas filhas na cama e estas, ainda inquietas depois da intensa viagem, lhe pedem que ele conte uma história. Depois das meninas escolherem a imagem de uma revista que têm em mãos, o pai começa a narrar a história. Seu protagonista é Johnny, um menino que, depois de comer uma flor mágica, começa a falar com os animais. As pequenas Susie e Clara escutam com atenção os detalhes e, em pouco tempo, adormecem. Sem fazer barulho, seu pai se afasta e se senta na mesa, onde anota sobre a história que acaba de contar, disposto registrar os dados de sua imaginação. Uma imaginação da qual já havia saído Tom Sawyer e que, apenas seis anos depois, serviria ao nascimento de Huckleberry Finn. Sim, estamos falando sobre Mark Twain (1835-1910).

“The Purloining of Prince Oleomargarine” é o único conto infantil escrito pelo estadunidense embora nunca tenha sido publicado. Com apenas 16 páginas manuscritas, o texto inacabado se perdeu na imensidão do arquivo de Twain. Depois de um pesquisador encontrar por acaso com o texto na Universidade da Califórnia, o conto é publicado nos Estados Unidos pela Doubleday Books for Young Readers (selo da Penguin Random House Canadá) e com uma particularidade: o casamento formado por Philip (escritor) e Erin Stead (ilustradora). Philip encarregou-se de continuar a história de Twain e Stead de compor 152 ilustrações para o livro.  

A descoberta do texto data de 2011, quando John Bird, professor de inglês na Universidade de Winthrop, na Carolina do Sul, se deslocou até a Universidade de Berkeley, onde está o arquivo de Mark Twain, para buscar informações sobre um livro no qual estava trabalhando. Foi àquele local motivado por descobrir um livro de cozinha sobre Mark Twain que dois colegas e ele estavam pesquisando. O pesquisador, enquanto, estava em meio os papéis viu a palavra “Oleomargarine” na lista de buscas e, movido pela curiosidade e o mencionado interesse culinário, pediu que lhe trouxessem do arquivo as páginas do citado texto.

O que descobriu não tinha nada a ver com a comida. Eram notas para um conto infantil. Alguém havia datilografado no texto: “Conto de fadas burlesco. De pouco uso”. Uma vez começada a leitura, ao chegar à segunda página, uma voz interrompia a narração e aparecia o nome de Susie. Foi então quando Bird se deu conta de que, na verdade, se tratava de “conto de verdade”. Depois de consultar um manuscrito que Twain escreveu sobre suas filhas, o professor pode certificar que era uma história que havia contado para Susie e Sara em Paris em 1879, época em que trabalhava em As aventuras de Huckleberry Finn.

Emocionado com a descoberta, Bird foi a Robert H. Hirst, diretor do Arquivo do escritor em Berkeley, e à Casa Museu de Mark Twain. Depois de descobrir o texto, o professor escreveu sua própria versão do texto e esperava que os responsáveis pelo legado do autor de As aventuras de Tom Sawyer se interessassem pela publicação.

Mas os planos “oficiais” eram outros. A instituição com sede em Hartford, Connecticut, decidiu vender o manuscrito a Doubleday Books for Young Reader que, por sua vez, optou pela maneira como a publicação vem agora a lume. Os dois, Philip e Stead leram a versão de Bird; gostaram, mas deram um roteiro diferente.  

Os Stead, uma espécie de “pop stars” da literatura infantil nos Estados Unidos, deram seu toque pessoal ao conto: o próprio Mark Twain faz uma espécie de participação no livro para debater com Philip, seu autor, sobre a orientação da história. Em Doubleday se descreve o trabalho como “um novo livro do escritor estadunidense mais lendário” e entendem claramente que “as notas de Twain dão a base de um conto de fadas que ganha vida mais de dois séculos depois”. Philip Stead, acrescenta, escreveu um conto que imagina como poderia as situações terem acontecido se Twain tivesse escrito o conto”.

Sem dúvidas, estamos ante uma das “descobertas” das que mais gostam uma indústria ansiosa por novas galinhas de ovos de ouro, embora sejam “ressuscitadas”. Por isso, Robert H. Hirst, o responsável pelo Arquivo Mark Twain em Berkeley, sublinha a importância da obra agora publicada dizendo que se trata de uma dessas descobertas que não comuns. O manuscrito era conhecido há bastante tempo, estava catalogado, havia sido lido e listado para publicação. A descoberta de John Bird foi sua descoberta particular: pensou que poderia escrever um final para conto e publicá-lo. O manuscrito não é novo para alguém familiarizado com o Arquivo de Mark Twain. O próprio Hirst encontrou com o texto pela primeira vez ainda em 1980, quando se tornou o responsável geral pelo arquivo do escritor e diz que não se sentiu impressionado com o texto se comparado com as dezenas e dezenas de manuscritos inéditos que dormem no arquivo. E pensou que não se poderia escrever um final para o texto.

Sobre o valor literário da obra, o responsável pelo arquivo não acredita que seja um texto que amplie significativamente o nosso conhecimento sobre a obra de Mark Twain. “Sabemos por outra evidência (seus diários), que contava muitos contos inventados na hora para suas filhas. A única coisa que tem de extraordinária nesta história é que decidiu passá-la para o papel e tomou várias notas, que não descartou, mas não terminou o texto. Como muitos outros manuscritos do arquivo”, sublinha Hirst que reconhece o resultado final – “a invenção de uma história completamente nova usando partes de Mark Twain” – não é o esperava quando John Bird lhe propôs a ideia pela primeira vez, embora tenha respeitado a decisão da Casa Museu em Hartford.

A editora faz uma tiragem inicial de 250 mil cópias na expectativa, certamente, do êxito de vendas semelhante ao da Autobiografia de Mark Twain que veio a lume em 2010 e permanecia inédita como outros tantos documentos no Arquivo de Berkeley e vendeu 500 mil exemplares em um ano.

Os últimos tesouros infantis encontrados

“The Purloining of Prince Oleomargarine” é o último conto infantil a aparecer depois da morte de um escritor. O estudo atento dos arquivos dos escritores durante os últimos anos resultaram na publicação de vários inéditos: a Penguin Random House também resgatou em 2015 um conto inédito de Dr. Seuss, criador de fantásticas personagens como o elefante Horton e o Grinch. O escritor estadunidense morreu em 1991 e sua companheira Audrey Geisel decidiu então reformar sua casa. Entre os vários papéis encontrados anos depois, em 2013, deu com “What Pet Should I Get?” – em português, "Que animal de estimação eu deveria ter?” que conta, inclusive, com ilustrações inéditas de Seuss. A editora, mesmo depois de os jornais como New York Times, dizer que este livro diverte mas não encanta, disse que ainda publicará outros dois títulos inéditos.

Em setembro de 2016 veio a lume, depois de cem anos, “The tale of Kitty-In-Boots” (“O conto do gato de botas”), de Beatrix Potter. A publicação coincidiu com os 150 anos de seu aniversário. Escrito em 1914, o manuscrito foi descoberto entre os arquivos da lendária escritora britânica que encontram com Victoria and Albert. O conto estava incompleto, mas contava com três ilustrações de Potter. Quentin Blake, o artista que deu aos livros de Roald Dahl seu estilo particular, chegou a um acordo para ilustrá-lo e o livro saiu pela Frederick Warne & Co., a editora original de Beatrix Potter, que agora pertence ao grupo Penguin Random House.

E há alguns dias apareceu nas livrarias anglo-saxãs, pela primeira vez, “North, South, East, West” (“Norte, Sul, Leste e Oeste”), um inédito de Margaret Wise Brown. Assim, a Harper collins celebra o aniversário de 75 anos da primeira edição de “The runaway bunny”, um “longseller” da autora estadunidense. O manuscrito do livro agora publicado foi encontrado há 25 anos por Amy Gary, numa quantidade diversa de materiais inéditos, diários e correspondências. Gary, que havia se dedicado a estudar toda essa obra, escreveu uma biografia de Brown. 


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