Tarântula, de Bob Dylan

Por Pedro Fernandes



Este livro participa de duas constantes muito caras à narrativa contemporânea. Primeiro, é a impossibilidade de realização, ao menos no sentido tradicional segundo o qual narrar é contar uma história e, logo, toda narrativa se desenvolve entre um motivo, um elemento desencadeador, e um fim, que não é necessariamente uma conclusão do relatado; e as infiltrações do discurso poético na prosa que aqui funcionam ora como se uma espécie de refrão para o texto, apenas no sentido de uma marcação entre uma massa textual e outra, ora como o próprio poema em sua estrutura e forma predominante, isto é, a organização em versos e estrofes.

Apesar de denominado pelo autor como um romance porque está entre “tudo aquilo que eu não posso cantar e é longo demais para ser um põem”, o leitor não encontrará em Tarântula uma história como começo, meio e fim, ainda que fragmentária como é comum a muitas narrativas desde a descoberta sobre a descontinuidade do discurso psicológico. Também não é uma narrativa que possa designar herdeira do fluxo de consciência porque os recortes são como lapsos de situações capturados por câmeras e tentados à justaposição no intuito de encontrar algum sentido sobre as coisas. Isto é, a fragmentação extrema da narrativa e sua incursão pela poesia se constituem numa maneira de representação sobre a simultaneidade dos fluxos enformadores da realidade. Tarântula é um caleidoscópio.

Multifacetado, o que aí se encontra é um discurso ininterrupto, marcado pela presença do parágrafo longo, ora do domínio total do espaço em branco da página e pela pontuação irregular que obriga o leitor a participar ativa e atentamente dos processos diversos de estruturação do discurso. Como se num jogo de montar, a cada nova leitura se apresentará para o leitor uma nova possibilidade de texto.

Tarântula é um texto que circula pelas margens; é um texto feito de dobraduras e testifica uma cisão entre realidade e fantasia (aí se mostram nomes de gente diversa que faz parte da história e situações que reforçam um viés crítico acerca do mundo de fora do texto e gente inventada com situações de igual valor). Transitar entre essas margens é compor labirintos cujas chaves somente a leitura insistente é capaz de revelar. Propositalmente cifra, uma vez não haver da parte de quem compõe os fragmentos que dão forma ao livro nenhum subsídio capaz de abrir alguma resposta definitiva sobre o que se lê.

Indiretamente ou diretamente (a objetividade ou exatidão com que os diversos fragmentos se apresentam dão-nos mais certeza pela segunda possibilidade) se constrói uma pergunta muito cara à literatura mimética: o mundo em que vivemos é tão transparente como nos disseram os realistas e os naturalistas? Como podemos saber o que é real (o mundo físico e dos objetos) e o que é fantasia (o mundo imaginado)? Em que parte essas fronteiras aparecem borradas? Tarântula não nos responde, porque os textos dessa antologia são eles próprios os lugares onde essas fronteiras estão borradas. São não-lugares.

Se não é fluxo de consciência porque o que se narra está ancorado no olhar externo, não é Tarântula também mera técnica, a pura técnica vazia e dominante de alguns surtos que tentam negar os protocolos tradicionais da narração. Se não parece, Bob Dylan age de caso pensado, ou seja, há uma estrutura oculta que se revela para o leitor e demonstra ser uma dorsal para cada um dos textos (mais de quarenta, no total) que compõem a coletânea. E a composição é sempre a mesma: oscila entre a justaposição do recorte de várias situações e uma espécie de diálogo desenvolvido diretamente com um silencioso narratário, tal qual o ouvinte abstrato de um eu-poético, que não raras vezes é a personagem central da peça narrativa.

Essas personagens constituem uma galeria quase infinita de rostos sobrepostos, como um grande mural, um álbum de parede, e são em grande parte, figuras comuns e periféricas, sobretudo periféricas, um mural, um álbum de des/conhecidos, de sujeitos em trânsito, fora da centralidade social; muitas vezes é nos seus designativos que revelam sua dimensão de integrantes da realidade corriqueira. São quem vemos quando fingimos não ver; ou quem vemos quando não sabemos quem são.

Quem narra é esse alguém (eu próprio?) que em trânsito capta situações, vozes, imagens, enquanto imagina coisas e, assumindo personas diversas, quão diversos podem ser as identidades das vozes que conversam conosco em nossa interioridade, escreve poemas. Assim poderíamos caracterizar este livro de Bob Dylan. Sem a atmosfera de cores do exotismo tropical, reiteradas vezes, o leitor que já tiver tido contato com obras como Catatau, de Paulo Leminski, poderá encontrar aí alguma semelhança, sobretudo, quando ante a primazia de desmantelamento dessas fronteiras que dão corpo aos textos, o autor se dedica, assim como subverte a gramática da narrativa, a subverter o idioma acrescentando novos sentidos e novos vocábulos, numa espécie de zelo por uma das tarefas indispensáveis da criação literária: a de oxigenação da língua.


Quando Tarântula foi publicado, a literatura estadunidense já havia presenciado uma de suas maiores modificações estéticas com a Beat Generation; as principais obras desse movimento literário foram publicadas num curto intervalo de tempo: Uivo, de Allen Ginsberg, veio a luz em 1956; On the road, de Jack Kerouac, no ano seguinte; e Almoço nu, de William Burroughs, em 1959. Cada um desses livros é marcado por um experimentalismo cujo intuito é desfazer-se dos protocolos da literatura tradicional, das maneiras de criação e do tratamento dedicado ao autor e à obra, e subverter códigos e expressões artísticas. São obras que lidam só aparentemente com a força do inconsequente cujo intuito é a libertação das formas e a intersecção da diversidade de outras possibilidades de uso da língua – seja o levante político em nome dos direitos civis das minorias e dos subjugados pelo status quo capitalista, seja a desvinculação da literatura do lugar elitizado, produto ainda do extenso período de relação estreita com a pensamento idealista e clássico, seja ainda a necessidade de outras formas de manifestação criativa, induzidas ou não.

E o livro de Bob Dylan, em parte gestado na mesma ocasião dos títulos da Beat Generation, ficou na gaveta da editora, por esquecimento ou desleixo do seu autor, durante quase uma década, embora a expectativa por sua apresentação tenha servido para uma alta dose de especulações ao ponto de circular entre os leitores mais curiosos, nesse meio tempo, cópias das provas do livro, espalhadas até hoje não se sabe por quem, mas diante a posição sobre o caso da editora responsável pela edição da obra, por figuras ligadas aos setores da crítica, quem muitas vezes recebem em primeira mão prévias do livro a ser publicado. Nasceu, portanto, um livro mítico, como seu autor. E pelas margens, fazendo o caminho inverso de todas as obras.

Tarântula, entretanto, não desassocia dos princípios que deram forma à Beat Generation: trata-se de uma narrativa que se constrói dos refugos sociais e cujo interesse é o de denúncia de um modelo social fundado na trivialidade, no acúmulo e na negação dos que não se enquadram nos padrões estabelecidos; os textos são resultados das experiências adquiridas do trânsito no mundo e as relações de sentido construídas entre eu-realidade; a técnica narrativa dos textos em muito se assemelha ao cut-up, pela sobreposição e justaposição de fragmentos textuais de diferentes teores, cujo intuito é o da desautomatização da língua e o envolvimento do leitor num esforço cognitivo diferente dos textos de ordem linear. Logo, é um livro que ao se relacionar com o enfrentamento social e sobretudo estético, recorre a uma tradição literária que, no seu país de origem, remonta a Thoreau e Whitman.

Por isso, uma obra que persiste. Não como culto, mas como proposta que ata as pontas da tradição a qual pertence e a de se propor inovar o artefato narrativo. Exige-nos um bocado, mas qual texto não faz isso? Um só princípio, assim se manifesta, é preciso deixar-se picar por essa tarântula, embrenhar-se no seu delicado e resistente tecido de seda. Se formos capazes disso, conseguiremos guardar um afeto significativo por esses textos que expõem outra das diversas faces de Bob Dylan. De um jovem que já então pensava em reinventar não a roda mas os usos dela.


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